quarta-feira, 18 de junho de 2008

Entrando na febre

(Carta enviada ao amigo Lameque Hyde, vulgo Z.Lopes, que aniversaria hoje. Meus parachoques, ò Grande Limão!)
Agora é oficial. Poderia inclusive ter sido uma das manchetes do Fantástico: Deveras é mais um dos infectados com a estranha febre de missivas do BDE (Bar do Escritor).
Cá no fundo gosto disso. Expresso-me melhor com as palavras escritas do que com as ditas, um pouco pela minha dicção errada, em parte por meu sotaque estranho, que nem é interiorano nem é fixado em uma região específica. Mas realmente torna-se uma hercúlea tarefa, se fazer entender estando ébrio na maior parte do tempo. Mas isso é outra história.
O que ocorre, e acho muito bom acontecer, é que apesar da humanidade dispor dos mais modernos meios de transmissão da voz e imagem, a comunicação feita por meio de linhas e linhas de palavras sobrepostas ainda carrega aquele charme blasé do século passado. Do retrasado também. Idéias saindo diretamente do oco da cabeça para uma folha de papel (ou tela de computador, wherever) é algo modernamente antigo. "Eu vejo um museu de grandes novidades". È, a velha carta ainda não morreu. Os Correios e as professoras de português agradecem. Por isso devemos escrever mais cartas, Ave Guerra, que lançou a batalha.
Somos, você, eu e aquela legião de pessoas que se doam para a escrita, meio que amaldiçoados com esta necessidade do escrever. Desalojar idéias que ficam perambulando na cabeça é um paliativo; sempre se está maquinando algo. O pensamento nunca pára, nunca dá um tempo. Ponha à prova: pense por exemplo em uma música erudita (Nocturne in G minor, Chopin), depois em uma cena clássica de filme (aquela da despedida em Casablanca cai bem), logo após relembre um momento de terror verídico (a colisão do Senna ou os aviões se chocando com o WTC). Você fez essa equação de coisas (e sua visualização) somente ao ler estas linhas, correto? Pois bem, agora tente não pensar em nada durante trinta segundos. O nada completo, uma alva e grande folha em branco dentro do seu pensamento.

Difícil, né? Domar um cavalo selvagem seria mais fácil. Dado o espírito indócil do pensamento, a humanidade deveria respeitá-lo mais. Lutou-se por milênios em busca da liberdade do pensamento e pára quê? Para desembocar em "créus" e cruzes. Certo, alguns irão que a experiência do funk proibidão ou da música pseudo-sertaneja que arranha a imagem do meu Estado são manifestações culturais de algumas camadas da população. Pode até ser, não vou comprar uma briga antropológica por conta disso, mas que é algo que fere os ouvidos e embota algumas mentes, é algo a se considerar. Por isso devemos considerar mais as coisas, repensar e reavaliar, na qualidade de produtores de discussões, de futuros diálogos, de apontar caminhos para o pensamento. A literatura tem que ter o comprometimentos em promover o debate, de trazer o pensamento à tona, ao dia a dia, se possível. Não que se exima de seu aspecto lúdico: deste modo viraria um monótono manual de instruções para servir de calço de estante. Um amigo, tempos atrás, usava simultaneamente um Kant, dois Heidegger e um Nietzsche como apoio para uma perna quebrada da cama. É cômico sem deixar de ser trágico (provavelmente menos no caso do Nietzsche, mas aí já é uma treta minha com o bigodudo).
Talvez esteja se perguntando porque escolhi lhe escrever do nada, em uma noite de domingo, ao som de "Hide your love away", com uma pressa anormal, por conta do fim da cerveja. A bem da verdade, não bem sei a resposta. É que quando me enviaram pro mundo não me deram a mochila das respostas, muito menos a sacola das perguntas. Ironicamente vim somente com aquele cacoete de ficar matutando sobre as coisas, sem chegar a um denominador exato, somente para poder transmitir isto em frases mais ou menos coerentes. Instigar as mentes e provocar a criatividade alheia.
Chame isso de dom. Uma espécie esquisita, mas um certo tipo de dom.
O futuro talvez diga o que não sabemos.
ficanapaz
C.Deveras
08/06/2008

3 comentários:

Paulinha Liz disse...

É esse o recado... não importa se é novo, se é velho, se é correto... o que vale na vida é pensar e dizer...

Gostei muito da carta...

Ao aniversariante, mesmo sem conhecê-lo, meus parabéns também...

Beijos

Flávio Otávio Ferreira disse...

Mais que pensar e dizer, o ato de escrever é o mais tortuoso e agradável caminho... tem-se um objetivo, seguimo-no e nunca se sabe realmente aonde vai chegar...este é o mistério que faz valer a pena!

Larissa Marques disse...

Beijo, lindo! Bom ter-te parceiro das letras, viu!
Bom texto!