sexta-feira, 20 de junho de 2008

Par de Palavras


É quase impossível pensar o homem sem as cidades, chego até a acreditar que o conceito de civilização se confunde com a idéia de cidade. Quando deixamos de lado grande parte daqueles instintos primários, deixamos de lado também uma selva, passamos a construir o conceito de humanidade junto com a idéia de cidade.
A cidade é um espaço que abriga muitos lugares que abrigam pessoas. Onde há pessoas, existe a necessidade de comunicação, de definição. Todos nós, de alguma forma, sabemos quais os deveres de um cidadão, quais as necessidades de uma cidade..., mas não nos damos conta que na medida em que as necessidades de uma cidade se ampliam, a cidade se torna mais complexa, exigindo a elaboração de leis que garantam o convívio pacífico entre os cidadãos, a documentação da sua História, a produção cultural, a oferta de serviços que atendam satisfatoriamente os seus moradores... a cidade é refém da comunicação, a língua é a expressão mais viva de um povo, os livros são a memória e a prova documental de uma nação.
Em dezembro de 1883 foi criada a Livraria do Globo na cidade de Porto Alegre, um belíssimo prédio que abrigou grandes nomes da nossa literatura. Era um ponto de encontro de intelectuais e uma editora que se lançou na publicação de revistas quando isso era novidade por aqui. O selo mais tarde foi vendido a RGE (Rio Gráfica Editora), empresa de Roberto Marinho, que passou a adotar o nome Editora Globo. Depois de vendido o uso da marca, a livraria seguiu o seu curso, sobrevivendo da venda de livros, continuou charmosa e elegante, chamando a atenção de todos os que passavam pela Rua da Praia. A marca se estendeu para outras cidades e bairros, mas aquela Livraria do Globo localizada na Rua da Praia 268 era como um templo. Era o lugar que todos olhavam com respeito e reverência. Neste ano, fomos todos surpreendidos com o fechamento da Livraria do Globo. Quando digo todos, me refiro a todos os que, mesmo não tendo hábito de leitura, mostraram-se surpresos com o fechamento da livraria que, inclusive, não foi totalmente fechada, continua funcionando nas portas do fundo.
A literatura agora ocupa as portas do fundo do antigo prédio da Livraria do Globo. Na vitrine, agora, podemos apreciar sapatos. Uma sapataria comprou a Livraria do Globo.
Não tenho nada contra sapatos, assim como não tenho nada contra a política da China e o aquecimento global, mas fico inquieto quando vejo um par de tênis ocupando o lugar da obra do Machado de Assis, na vitrine. Fico indignado ao ver que as obras completas do Monteiro Lobato foram substituídas pela coleção das botinhas da Sandy. Não, não tenho nada contra os sapatos, eles vieram antes dos livros, existem evidências de que o sapato surgiu 10 mil a.C., no final do período paleolítico, esses indícios foram observados em pinturas feitas em cavernas na Espanha e no Sul da França. É inevitável perguntar, será isso um sinal? Ao ver a vitrine da Livraria do Globo com sapatos, evoquei as pinturas das cavernas e imaginei que nem todos os nossos instintos primitivos estão reprimidos. Os primatas estão usando toda a austeridade e grandeza do prédio histórico para celebrar o consumo e o fato de ter aprendido a ser bípede? Não, não tenho nada contra o consumo, nem muito menos contra os primatas. Aos que me lêem perdoem-me por ser silente no tocante a essas questões, é que me dei conta do significado da frase “a pátria de chuteiras” e, consequentemente, fiquei surpreso em descobrir que a cidade chutou a palavra para as portas do fundo.

Um comentário:

Larissa Marques disse...

Estou tentando colocar minha vida literária em dia, e vejo que vale a pena voltar aqui sempre, seu texto está maravilhoso, saudade!
Espero que tenha gostado dos livros!