sábado, 10 de abril de 2010

Fuga de Poesia


Minha poesia saiu à rua e se escondeu em buracos escuros, sujos, tentou preservar o pouco de vivacidade que lhe restava na face, feito maquiagem borrada depois de choro.

Encontrava dedos de acusação em todas as figuras descoloridas que cruzavam seu caminho. Estas cuspiam rimas isoladas, atingiam-lhe o corpo angélico com tamanha fúria que escárnios eram pregados em sua testa, julgavam mal sua liberdade.

Minha poesia esquivou-se. Escondeu-se em esquinas de pedras mal assentadas, borradas e feias, envergonhada pela nudez de seus versos, procurou trapos jogados no lixo para se cobrir.

E nessa fuga cruel, quase suicida, chocou-se com algo, alguém, uma alma translúcida e tão clara que a carregou em suas barbas úmidas de leite quente para os altos dos muros das cidades e não mais a escondeu. Ao contrário do que ela própria queria, espalhou-a, divulgou sua volúpia e a delicadeza de sua feminilidade. A expôs e declarou publicamente sua aprovação.

Minha poesia caminhou livre, afinal, com seus seios brancos à mostra, a pele clara e levemente avermelhada, um gozo discreto no rosto. Sem rimas, por vezes sem luxúria ou extravagância, simples e nua como se vem ao mundo.
 
Foto: Michele at the river by Curly0212

7 comentários:

Flá Perez (BláBlá) disse...

gostei disso! encanto!

tenho um poema, "Fé Poética", em que digo, sobre a poesia:
"...quero a concebida
sem consciência do pecado
nua em pêlo,
no mais completo abandono...".


bjbjbj

Marcelo Novaes disse...

Cris,




Fugiu [/esquivou-se, acuada], mas foi pega pela cauda...




:)






Beijo.

Joana Masen disse...

Sua poesia fugiu, saiu correndo e parou aqui em casa... estou guardando-a com carinho. Bjos!

Cris Linardi disse...

Flá, obrigada! Fico feliz que tenha gostado.
Marcelo, eu ainda não comentei que sou avoada e fico boiando, falei? Eu não entendi se você colocou frase de poema seu ou se quis dizer que não usei a palavra corretamente! É, eu bóio... Deixe-me saber, por favor!
Beijos!

Cris Linardi disse...

Joana mais rápida que eu pra comentar!!! Beijos, querida!! rs

Flávio Otávio Ferreira disse...

Que o poeta não tente aprisioná-la, mas acima de tudo, concebê-la nua, livre, vivaz!!!
Belo texto, Cris!!!
Paz e Literatura sempre!!!
Beijos!

Cris Linardi disse...

Valeu, Flávio. A poesia é nua. Não há como se esconder, ela desmascara.
Bj.