sexta-feira, 30 de abril de 2010

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Tec tec ...
tô vivo
Aliás,
tô online
conectado a rede mundial de desespero
e esperança;

A rede daquele que computa as dores
e luta.
Para as Tristezas clica em delete.

O tec!tec! nas mãos
Tum!tum!no coração
Ploc!ploc!nos olhos
Pá!ai!bum! nos ouvidos
Mas da mente á boca
Soa a palavra Força!
Dês-virtualmente dês-humanamente
a vida,
uma parte por um triz
outra parte por um click.
‘Tô online Mundo
e Insistência é meu Nick.

A vida é dura.
Insisto.Vivo.
A tecla é dura.
Insisto teclo e digito Ânimo
Pra amaciar essa Vida.
Mundo,tô ligado na sua
E logado na Vida.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Em casa


Tem flores sobre o balcão da pia, na cozinha.

E um ar circular atinge-me no rosto quando abro a porta.

Ouço violinos violando para a chuva e alguns sons humanos que tentam chegar-me entre o som do chocar das nuvens.

Palavras simulam dançar uma harmônica sinfonia.

A luz amarela de um lampião acentua o brilho cristal da chuva e traz às paredes o esverdeado quase mata...

Sinto-me... Em casa.





domingo, 25 de abril de 2010

Diários de Bicicleta


A Sensação da descoberta.

Lembro-me que desde minha tenra infância nutria a vontade de andar de bicicleta. E não era nada que não significasse, porque para mim tudo significa algo além do que se pode ver. Existe um prazer maior oculto em cada experiência que se vive. Pedalar, e enfim me ostentar pelo mundo mágico que me abraçava, inicialmente não soava tão especial. Obviamente essa teatralidade que eu tanto desenhei, não foi como eu imaginei. Mas aí sempre me questionei se eu estivera realmente enganado. E sim, eu estive. Demorei então para finalmente me decair em minhas reais suspeitas. A sensação prevista por mim não era de longe semelhante. Não sei exatamente quantas, mas devem existir pessoas que também sintam em pequenos prazeres, uma incomensurável felicidade. Aos poucos fui descobrindo, e me descobrindo.

Foi então que o mundo se abriu, e meu sorriso o acompanhou. Talvez pelo motivo de então ter maior noção da realidade em si, e da verdadeira força que se atrelava nas emoções de minha alma. Era real, e eu sentia essa fascinante experiência. E não por estar sonhando uma vivência, mas por estar vivendo um sonho. Teorias e suposições não se encaixavam mais nas entrelinhas de minha patética mente. A prática se confluía naturalmente, e embora não soubesse ainda, estava pra descobrir coisas mais importantes. Sei que parece meio infantil falar de tudo isso, mas são essas pequenas coisas, esses ínfimos momentos, que mais me completam.

A descoberta de aventurar-se pela selva de pedra, absorvendo o melhor dela, me deixava em Êxtase. A chance de desbravar meu próprio ser era enfim relaxante. Porque hoje não pedalo só por pedalar, assim como não amo só por amar. Na verdade eu não pedalo, eu vôo carregando um mundo, e meu coração segue junto, me ajudando a manter o equilíbrio. A descoberta completa desse imenso prazer não veio imediatamente. Aventurei-me muito para enfim compreender o real significado do vento que resvala em minha face.

Hoje isto é transcendental.

sábado, 24 de abril de 2010

Fábula Segunda

video




Todas as estatísticas sorriem para mim:
sou um entre as migalhas moídas pelo trânsito.

Meu nome corre entre os que matam
por gosto ou dinheiro -
capa de jornal sensacionalista, de ontem,
me explica como serei vítima de latrocínio.

Um merda sorri no algodão ariano de minha t-shirt,
e é vermelho o papel em que escrevo,
vermelhos os livros de história na estante.

Falo de amor contigo
em meu celular movido a lithium:
você me conta que nosso filho irá se chamar Citotec.

Somos felizes para sempre.


______
Fábula Segunda - do livro Comerciais de Metralhadora
Voz: Luis Gaspar (Estúdio Raposa - Portugal)
Edição: Larissa Marques (Editora Utopia)


sexta-feira, 23 de abril de 2010

Morte Súbita

Subtraio a vida de repente
e vejo o sangue
escorrer devagar;
tudo acaba.
(Um copo de vinho)
Pedem para continuar
suplicam aconchego,
é cômico
ver o canivete cego
tentar, inutilmente,
rasgar a pele...
derme... epiderme...
Uma pedra? Uma faca?
talvez fogo
lento e doloroso.
Com uma incisão profunda
a veia, vazia de vida
vermelho-vivo,
valsa e versa
vez ou outra pelo corte:
o decote aberto
o peito
abrigo incerto para a morte.
Má-sorte que lhe veste tão bem.
(Demência)
Uma orquídea negra na lapela,
tão bela!, é a marca dessa farsa
- segue a marcha fúnebre.
Negue essa morte
súbita e louca!
Peça que ela te leve
e enterre tudo o que passou
e o pouco que ficou.
(Surreal)
Só uma gota de veneno
no sangue
e num instante a vida vai.
Espere!
Tentar conter o rompante
de lágrimas frias
que lavam o rosto
exangue, doente...
O fim está na janela
à espreita.
Paraíso? Purgatório?
Ou o perdão... não sei
o destino é com ela
mas acendo essa vela por sua alma
para que a passagem
seja breve e calma.
Um nó na garganta
a língua cala
o amargo ainda vem.
(Bucólico)
Atiro... e despetalar uma flor
é tão simples que rio... rio...
Serei julgado, eu sei
mas hoje fui contratado
para buscar essa vida.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Casarão

Quando era mais jovem costumava me assemelhar a um pé de manga, onde meus frutos, dependurados, ou caíam maduros na cabeça de algum passante, ou apodreciam de velhos, pois digamos que a minha localização era dúbia, ou qualquer coisa que se julgue distante o suficiente para não ser encontrada.

Uma árvore de tronco espinhento, onde os poucos que se aventuravam a subí-la tinham os pés e mãos cortados num misto de dor e delícia.Mas ser mangueira não é lá muito conveniente, pois além de fixa, é algo que um dia alguém sempre irá cortar para dar espaço à outro empreendimento, e foi assim mesmo.

No lugar da mangueira, foi construído um casarão.
Há que ser fixo, sempre, quem toma a fidelidade e a lealdade como prumo de um barco, mesmo que à deriva.

E hoje, como todo bom casarão, solitário e porque não atrevido em meio à modernidade que se levanta, assim eu passo, passo a passo, pela vida dos outros, e da minha própria.

Um casarão onde os mais velhos passam pela frente e respiram nostalgia, das festas antigas, dos velhos amores fracassados, das noites em vão. Onde os mais novos perdem suas bolas de futebol e num misto de dúvida e medo entram valentes, mas não acham nada. Não há o que ser achado em uma casa abandonada. Às vezes.

Um casarão de telhas quebradas, com janelas inteiras, e uma porta com um brasão de uma família que não existe mais, por inconsequência de atitudes alheias ou simplesmente porque o destino quis, como tantos gostam de acreditar.

E assim passo meus dias como velha construção, onde os fantasmas descem sorridentes pelas escadas em seu vai-e-vem inconstante, onde o chá dorme grudado nas xícaras, onde os bailes de outrora hoje dormem desfocados, onde há silêncio, lembranças e nenhuma saudade.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Brasília, 50 anos!


Brasília tem sido constantemente e injustamente criticada por desavisados brasileiros, como se a cidade fosse a responsável pelo mar de corrupção que assola o país. Esquecem-se os críticos que a capital apenas recebe por alguns anos os corruptos que são eleitos nos estados de origem...Como uma forma de elevar um pouco a autoestima dessa jóia da arquitetura que completa meio século nos próximos dias, passo a publicar algumas informações curiosas sobre Brasília e o Distrito Federal:
1 – Algumas das mais criativas Iniciativas literárias nasceram em Brasília: Mala do livro, açougue T-bone e loucos de pedra. O açougue T-Bone, na Asa Norte, promove eventos literários quase toda semana e montou minibibliotecas em pontos de ônibus da própria Asa Norte; a Mala do Livro, criada por uma bibliotecária da cidade, consiste em uma pequena estante fechada que fica na casa de voluntários, e que disponibilizam os volumes para a vizinhança (existem Malas do Livro em algumas estações do metrô também); por fim, o grupo Loucos de Pedra, que fez mosaicos de poesias em um trecho de calçada na quadra 509 Sul, próximo ao Espaço Cultural Renato Russo;
2 - Considerada patrimônio da humanidade pela UNESCO em 1987, com apenas 27 anos de fundação, tendo em vista dois critérios: “representar uma obra-prima do gênio criativo humano” e “ser um exemplo notável de um tipo de edifício ou conjunto arquitetônico, tecnológico ou de paisagem que ilustra fase significativa na história da humanidade” (Fonte: http://whc.unesco.org/en/list/445);
3 - A ponte JK (mais conhecida como terceira ponte) foi considerada pela Sociedade dos Engenheiros do estado da Pensilvânia (EUA), como a mais bela das pontes construídas em 2002;
4 - Alguns dos maiores corredores do Brasil vieram da capital: Joaquim Cruz (campeão olímpico em 1984) é de Taguatinga, onde começou a carreira e viveu até os 18 anos; como ele, Marilson Gomes dos Santos (vencedor da São Silvestre em 2003 e 2005); e a primeira mulher brasileira a vencer a corrida de São Silvestre foi Carmen de Oliveira, de Sobradinho, em 1995;
5 - Kaká nasceu no Gama e Lúcio em Planaltina; o primeiro saiu cedo da cidade, mas Lúcio iniciou a carreira no Distrito Federal, de onde só saiu aos 19 anos;
6 - Alguns dos maiores representantes da música brasileira nasceram e/ou começaram a carreira em Brasília. Alguns exemplos: Ney Matogrosso, Fagner, Oswaldo Montenegro, Zélia Duncan, Cássia Eller, Legião Urbana (rock), Paralamas do Sucesso (rock), Plebe Rude (rock), Raimundos (rock), Natiruts (reggae)e Câmbio Negro (rap);
7 - Oscar, maior atleta de basquete no Brasil, começou a carreira em Brasília, aos 13 anos, no Clube Unidade Vizinhança;
8 - Dois dos mais conhecidos jornalistas do país criaram-se em Brasília: Ana Paula Padrão e Tadeu Schmidt (irmão de Oscar);
9 - O parque da cidade Sarah Kubitschek é considerado o maior parque urbano do mundo; para comparação, é duas vezes e meia maior que o Ibirapuera, em São Paulo e ainda maior que o Central Park, em Nova York; às margens do lago ali existente, Renato Russo teria composto um dos maiores sucessos da Legião Urbana, “Eduardo e Mônica”, o que motivou a construção de uma escultura em forma de violão no local;
10 - A clássica canção “Água de beber”, de Tom Jobim, foi composta em Brasília. A inspiração foi uma mina de água existente ainda hoje no Catetinho. Ao indagar a um candango que água era aquela, o homem respondeu: “é água de beber camará”, dando origem ao seu famoso refrão;
11 - O bina foi inventado em Brasília, em 1977, pelo eletrotécnico Nélio Nicolai;
12 - O mastro da bandeira do Brasil, em Brasília, suporta a maior bandeira hasteada permanentemente do mundo. Possui 100 metros de altura e é formado por 24 tubos de aço, visto que 24 era o número de estados (mais o DF) existentes na época da construção – início da década de 70. A bandeira mede o tamanho aproximado de uma quadra de esportes, e é trocada mensalmente em solenidades.

terça-feira, 13 de abril de 2010

pedrinha n'água

(um quase-poema, interrompido pela razão e seu péssimo hábito de ficar discutindo, questionando, tentando entender tudo, sistematizar, prever, explicar...)

uma pedrinha n'água
produz ondas
concêntricas
centrífugas
perfeitamente circulares

estas ondas se expandem
outras nascem
do centro exato do círculo
o espaço do oceano
parece mesmo ilimitado

quantas ondas cabem no mar?
e quantas pessoas
cabem no mundo?
e o que acontece quando
não cabem mais?

será que um dia
(no final dos tempos?)
todas as ondas
voltando ao centro
devolverão todas as pedras?

será que o tempo tem um final?

Fico pensando que, no final, o tempo pode se rebobinar, como uma fita de vídeo, lentamente (pois o tempo não há de ter pressa) as coisas todas desacontecendo.

E depois, na re-volta, reacontecendo... (da mesma forma??)

uma onda de tempo
indo e vindo
um meta-tempo
tempo além do tempo

De algum lugar uma resposta: "E quem disse que não é agora que as coisas desacontecem? quem disse que as pedrinhas não caíram do mar para cá e agora estão voltando para o lugar de onde vieram?"

Ora, ora... (respondo, com um certo enfado) se estivessem voltando, as ondas correriam PARA DENTRO, para empurrar as pedrinhas de volta! Não correriam para fora, não é?

"Será?"

Mas não é evidente?
(Tento ser didático, às vezes é preciso explicar.)
Para expulsar a pedra, a água teria que empurrá-la, num movimento de fora para dentro, portanto as ondas teriam que mostrar um movimento correspondente, de fora pra dentro, cen-trí-pe-to.

(Na sensação arrogante de triunfo, mal percebo o golpe de misericórdia se aproximando.)

"...e que tipo de onda aparece quando se TIRA uma pedra da água?"

*CLICK*

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Publicado Originalmente nos EcosDiversos
(Direitos reservados, tanto aqui como lá.)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mais perto do senhor

Ela vestiu sua melhor roupa, tirou do armário aquele perfume guardado para ocasiões especiais e ficou fazendo e desfazendo o cabelo até que ele ficasse impecável.

Saiu de casa meia hora antes do que de costume e caminhou pelas ruas vazias em direção à praça. As poucas almas vivas que encontrava estavam entre vivas e mortas, acordadas e desmaiadas, resquícios da noite anterior. Era assim toda manhã de domingo, especialmente na época da colheita do café, quando a população da cidade dobrava apenas com os trabalhadores temporários, nômades, a serviço de quem tivesse serviço a oferecer.

Como planejado, chegou a tempo de pegar o melhor lugar, na primeira fila, à margem do altar. Observou atentamente cada movimento do padre enquanto ele preparava-se para subir ao púlpito, estava esperando por este momento desde a semana anterior, mas não se arriscava a dirigir-lhe a palavra. Ela pensava que se ele ao menos a olhasse com atenção, ela nem precisaria falar nada.

Em pouco tempo começaram a chegar outros fiéis, alguns infiéis e outros que nem sabiam muito bem o que estavam fazendo ali. Entre todos, uma lhe chamou a atenção, ela nunca tinha visto aquela moça por ali. Não era muito bela fisicamente, tinha lá um ou outro detalhe a reparar, mas o que mais chamava a atenção era a roupa. Era uma roupa de sábado, parecia imprópria para a missa de domingo, uma saia alguns dedos acima do joelho e uma blusa de alça, com um leve decote, que deixava à mostra as linhas do pescoço adornadas com um belo par de colares, um em tons de madeira e o outro vermelho.

Logo ela deixou de reparar no pescoço e na moça dona do pescoço. Mas então quem reparou na moça foi o padre e, após reparar que ele havia reparado, ela voltou a reparar na moça. Analisou cada detalhe, cada leve defeito, cada pecado que ela havia de ter cometido. E reparava também no padre, nos seus olhares e seus sorrisos. Assemelhavam-se ao olhar e ao sorriso do último domingo, mas ela tinha certeza que se direcionavam ao quinto banco do lado esquerdo da igreja.

A situação foi lhe deixando ansiosa, não sabia como proceder diante de tal afronta. Ainda mais porque ela estava na primeira fileira, em meio a duas senhoras, no meio da cerimônia, em meio aos olhares e colares, pensando em um meio de cessar aqueles atos indecentes. Foi então que começaram uma oração e ela, sem outra opção, começou a rezar alto, mais fervorosamente do que qualquer pessoa já havia orado diante daquele altar. Por conta disso, os olhares de todos, inclusive os do padre, direcionaram-se a ela. Percebendo a situação, ela continuou, em alto e bom tom, a pronunciar todas as falas que cabiam aos que ficavam de frente para o altar, já sabia todas de memória.

Ao final da cerimônia, após cânticos entusiasmados e orações fervorosas, ela olhou para o padre e ele fez um gesto para que ela se aproximasse. Ela sentiu um frio na espinha, até o ar dentro dos seus pulmões sentiu-se intimidado e acabou ficando por ali mesmo enquanto ela caminhava em direção ao altar. Durante a breve caminhada, observou com um sorriso a moça dos colares retirando-se pela porta lateral.

Quando ela já estava perto o suficiente, ele disse:

— Já na minha segunda celebração não pude deixar de notar tua presença. Não há modo de não ficar admirado com tua devoção às orações e aos cânticos. Tens algum motivo especial a celebrar?

Ela deu mais um passo em direção a ele e respondeu:

— Tenho só um motivo, ficar mais perto do senhor.








Neste sábado, dia 17 de abril, ocorrerá o lançamento do
Vem cá que eu te conto em São Paulo, na Casa das Rosas
Av. Paulista, 37 - Bela Vista, das 17h às 20h



E no próximo sábado, dia 24 de abril, o evento será em Curitiba.

Na capital do frio, lançaremos o livro no Quintana Café
Av. do Batel, 1440 - Batel, das 16:30 às 20:00



Mais informações, acesse: http://vemcaqueeuteconto.wordpress.com

domingo, 11 de abril de 2010

O Trem


Da janela eu vejo a mata, o sol azul, um edifício não acabado, a praça. Todo dia um trem passa apitando na mesma avenida aonde os carros vão passando, contrastes da modernidade. A avenida para, as pessoas nem ligam, estão acostumadas com isso, mas a minha mente para nesse momento, como se o apito do trem me chamasse a viajar. Minha namorada disse que eles não deixam viajar no trem, ainda não estou convencido, a estação continua lá, no mesmo lugar que o trem insiste em parar, todo dia, me olhando, chamando a passear. Já pensei em ir correndo e falar com o maquinista, será que ele vai me achar muito louco, na verdade nem pensei no que ele vai achar. Calma antes que vocês digam, ele passa muito lentamente, não há perigo. Hoje pela manhã as crianças saíram para passear e fui convidado também, até pensei em ir, quando ouvi falar em trem, mas desisti e saí de mansinho, ninguém percebeu que corei ao saber que era um trenzinho. Viajei doze horas para chegar aqui, mas não me importaria se levasse dois dias e sei que teria muito mais graça, se a viagem fosse numa Maria Fumaça. Toda vez que vou até o mercado e passo sobres os trilhos, meus olhos ganham um novo brilho. Na primeira segunda feira que estava aqui, fui conhecer a cidade de ônibus com a dona Geni e agora uma idéia me vem à mente, será que se eu pedir como as crianças, a vovó me leva pra andar de trem?


Joakim Antonio

sábado, 10 de abril de 2010

Fuga de Poesia


Minha poesia saiu à rua e se escondeu em buracos escuros, sujos, tentou preservar o pouco de vivacidade que lhe restava na face, feito maquiagem borrada depois de choro.

Encontrava dedos de acusação em todas as figuras descoloridas que cruzavam seu caminho. Estas cuspiam rimas isoladas, atingiam-lhe o corpo angélico com tamanha fúria que escárnios eram pregados em sua testa, julgavam mal sua liberdade.

Minha poesia esquivou-se. Escondeu-se em esquinas de pedras mal assentadas, borradas e feias, envergonhada pela nudez de seus versos, procurou trapos jogados no lixo para se cobrir.

E nessa fuga cruel, quase suicida, chocou-se com algo, alguém, uma alma translúcida e tão clara que a carregou em suas barbas úmidas de leite quente para os altos dos muros das cidades e não mais a escondeu. Ao contrário do que ela própria queria, espalhou-a, divulgou sua volúpia e a delicadeza de sua feminilidade. A expôs e declarou publicamente sua aprovação.

Minha poesia caminhou livre, afinal, com seus seios brancos à mostra, a pele clara e levemente avermelhada, um gozo discreto no rosto. Sem rimas, por vezes sem luxúria ou extravagância, simples e nua como se vem ao mundo.
 
Foto: Michele at the river by Curly0212

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Nasci Simplesmente*


Nasci simplesmente
na arte de viver,
e vou prosseguindo
luta após luta;
volto ao casulo,
estou mudo,
sem palavra,
sem verso,
sem nada...
Sou simplesmente
namorado da lua,
poeta enclausurado
no umbigo do universo
e meus versos
são simples
como o olhar da coruja
que de cima do telhado
observa a madrugada.

(*)Poema do livro ITINERÁRIO FRAGMENTADO

sábado, 3 de abril de 2010

a fome do ar


o ar esfola o objeto
esfola o homem
o ar deteriora
o ar corrói
o ar esfola o objeto-homem
o ar carcome
o ar consome
o ar desnatura, perverte
adultera, infecta, enrruga
escama, talha
o ar vicia
OaR
esfOla
OaresfOlaoObjetOhomem


fotos e poema : isaias

quinta-feira, 1 de abril de 2010

disco dos símios






o vinil está sujo, a agulha vai e volta no mesmo ponto, mas ninguém desliga a vitrola. uma varejeira sobrevoa as sobras do nosso jantar, talvez o último. uma mosca consegue nos desprender da uniformidade da cena. é verde e voa rápido demais. não temos mais o que falar, só ficou a indiferença e o desprezo. Carlos num único e certeiro golpe a derruba e tudo volta ao normal. no vigésimo sexto capítulo, o relógio parou e está estático como o retrato dos três macacos. o cego insiste em ouvir, o surdo insiste em falar e o mudo cansou-se de tudo.