segunda-feira, 12 de julho de 2010

Descaminhos

Torturando-se, refez todos os passos daquela noite enquanto reconstruia mentalmente a tragédia: o caminho mais curto, os olhares receosos, o grito e os dois disparos, secos, à queima-roupa, seguidos pelo silêncio. Por algo tão banal que ele nunca conseguiria entender.

No entanto, não desistiu, tentou decifrar os porquês, percorrendo e examinando cada detalhe daquelas vielas putrefatas, até a estafa. Naquele cenário sombrio, entre tantas lembranças drásticas, perdeu-se do fio da razão, sua única esperança de retornar, são e salvo, à rotina. No centro do labirinto, cercado por medos, prometeu nunca mais piscar os olhos.

Encontraram-no em um canto, com os olhos bem abertos, ressecados.

Um comentário:

Cris Linardi disse...

Belo fiel retrato da nossa realidade.
Já me encontrei escondida, em um canto de mim, de olhos bem abertos.
Abraços!