segunda-feira, 30 de abril de 2007

Laranjas

— 180 quilômetros, Henrique?
— É isso. Cento e oitenta.
— É um trecho bom de estrada. Será que essas laranjas não vão se perder no caminho?
— Não tem problema, Afonsinho. Não tem espaço no porta-malas mas a gente arruma no banco de passageiro. Veja só...
Henrique e o irmão pegaram duas grandes sacolas de laranjas e as alinharam uma em cima da outra no banco de trás do carro. Antes amarraram os dois volumes e os prenderam no banco usando inclusive o cinto de segurança.
Estavam em uma fazenda, propriedade dos pais de Henrique e Afonsinho, que ali vivia. Henrique costumava passar o final de semana no local, junto com a esposa e o filho de 7 anos. Naquele momento, domingo à tarde, se preparavam para voltar à cidade.
Já no carro, malas e laranjas prontas, o filho de Henrique, no banco de trás, tenta inutilmente colocar o cinto de segurança.
— Deixa pra lá, Carlinhos. A viagem é curta e a estrada tá vazia.
E partiram. De fato conheciam a estrada, a ponto de batizar com nomes alguns buracos na pista. A BR estava vazia o que incentivou Henrique a aumentar um pouco a velocidade.
No entanto, não contou com um animal que repentinamente entrou na estrada. Num reflexo, acionou rapidamente os freios; o animal – um pequeno cervo – ficou paralisado no meio da pista, enquanto o veículo se aproximava.
Uma fração de segundo depois, deu um salto e voltou à mata. O carro, rodopiando, invadiu em seguida o espaço que o animal ocupara. Metros à frente, parou, transverso na pista.
Imediatamente, Henrique levou o carro até o acostamento. Então, olhou para a esposa e o filho.
— Comigo está tudo bem. — respondeu Vanessa, ainda um pouco tonta.
O casal olhou para trás: fios de sangue manchavam o vidro lateral e o banco de passageiros. O garoto estava deitado no chão do veículo, desmaiado, e sangrava muito.
Desesperados, dirigiram rapidamente até a cidade mais próxima. Estacionaram em frente a um hospital, e enquanto Vanessa pegava Carlinhos no colo, Henrique explicava o ocorrido para a enfermeira da recepção.
O garoto estava inconsciente e foi levado para a emergência. Após a chegada do médico, constataram-se alguns cortes profundos e uma fratura no nariz. Felizmente, ele não corria risco de morte, mas precisaria passar a noite internado, em observação.
Já de noite, acordado e na companhia da mãe, Carlinhos acompanhava um filme na televisão quando seu pai entrou, com um copo na mão.
— Tome, meu filho, vai ser bom pra você.
— E o que é?
— Suco, feito com as laranjas que a gente trazia da fazenda. Como estavam bem amarradas e protegidas, as frutas não se perderam no acidente...

9 comentários:

Augusto Sapienza disse...

Bem irônico... Bom texto!
Bem-vindo ao blog...

Abraços

Thin White Duke disse...

aheuiaehehiueaheea
acho q já tinha lido no Bar
e aqui ratifico,
mto bom
flew!

[barba] Uonderias disse...

amigo, corrija a postagem apenas no nome do garoto

"Estacionaram em frente a um hospital, e enquanto Vanessa pegava Carinhos no colo"

gostei do texto!

Alexandre disse...

Glauber, um conto que mostra a inversão de valores...e no caso uma triste inversão.
Abraços!

Klotz disse...

Laranjas soltam o intestino mas não o cinto de segurança.
Bom texto, Glauber.

Glauber Vieira disse...

Barba, corriji o texto, grato pela observação.
E obrigado a todos pelos comentários!

[barba] Uonderias disse...

não foi nada!
estamos aí!

gleice.miguel disse...

NA VIDA HÁ PESSOAS Q NUNCA PENSAM Q PODERÁ OCORRER ALGO DE MAIS GRAVE AO SAÍREM D CARRO OU MESMO A PÉ...ESQUECEM D PEQUENAS ATITUDES Q VALERIAM SUAS VIDAS, ou DO PRÓXIMO!NUNCA DEIXEM D FAZER ALGO IMPORTANTE...MUITO LEGAL SEU TEXTO IRMÃO!!!PARABÉNS

Larissa Marques disse...

Glauber, sê bem vindo. Gosto do inesperado!
Beijo grande!