domingo, 23 de dezembro de 2007

Extravios



Juliana Ferraz


Eu te agradeço por esse afastamento lento e gradual e pela viagem interrompida por seus perpétuos atrasos causados pelo medo de tirar os pés do chão. Agora, a cada dia eu preciso de uma roupa nova desde que minhas malas foram extraviadas para sempre com todo o nosso excesso de bagagem.

Eu te agradeço pela honestidade da sua omissão tão previsível que sempre confundi com meus presságios. Essa ida sem despedida que você covardeou: eu finjo que não sei, você finge que não foi.E a gente segue inventando que ainda se interessa pelo que começamos a construir juntos, num outro contexto, pra realçar nossos vínculos.


Eu te agradeço a descoberta de que se não seguimos juntos nessas coisas do amor,

seja porque talvez

eu, veterana

enquanto

você ama-dor.
*
Marla de Queiroz

4 comentários:

Glauber Vieira disse...

Gostei do jogo de palavras; texto reflexivo com um final nota 10!

João C. A. disse...

endosso o comentário anterior

*Caroline Schneider* disse...

Marla... adorei teu texto... e nele viajei duas vezes, em duas leituras deliciosas. Agradeci, junto contigo, minhas experiências análogas, rs, pois os extravios sempre têm um tanto de cada uma destas coisas. O final, sim, este foi perfeito! Parabéns! Beijocas estaladas!

medusa que costura insanidades disse...

Belo texto,inteligente,sutilmente doloroso