quinta-feira, 10 de março de 2011

É quando o tempo continua caminhando

All the way down by Katie Tegtmeyer

Ela estava notando vestígios em si mesma; como o reflexo que surge aos poucos no espelho depois do banho. Ainda estava de luto, mas o que doía era entender que a pessoa não lhe fazia falta; a ausência do papel que representava era o que machucava. Como uma faca que cutuca diariamente – o coração sangrando lento, no ritmo cruel do tempo, porejando o passado de uma forma tão angustiante que sufoca. Havia tudo aquilo que tinham juntado. As fotos, as lembranças, os passos no cimentado. Cada trocar de olhos e de lugares que ambos faziam quando tinham um truque na manga para vencer o inimigo. Por isso notar de relance que era apunhalada de leve foi tão doloroso. Ela sabia, como quem descobre um segredo, que as zonas-limite das situações são traiçoeiras como cães de guarda que confundem o dono na escuridão: estar-se à mostra, com todas as verdades expostas e as luzes acesas, por muitas vezes é bastante necessário. Porque aquele sussurro diário que sua alma gemeu durante toda a sua vida era inaudível; ela recolhia os cacos nos cantos da casa enquanto não atendia as dores noturnas. E se revolvia por dentro, feito insônia que atormenta o insone, demorando para atender aos chamados, contudo. E ela era tão amável quando lembrava que tinha vida, que conseguia voltar-se de onde seus olhos estacavam com rapidez e o mundo reiniciava sua volta. Parar no meio caminho e observar o nada era observar por dentro e ela temia essas incursões de seus pensamentos – doíam como luxações por dias. O que lhe firmava o cérebro, algumas vezes, e a fazia voar para longe sem sair do lugar, era imaginar o que acontecia quando não estava presente, pensar se as pessoas sentiam sua falta, se se lembravam de sua existência, se notavam que seu lugar na mesa estava vago ou se era apenas como objeto de decoração que simplesmente desaparece no meio dos outros bibelôs e a dona da casa não dá atenção. Entrava num estado constante de alucinação e adorava trabalhar em excesso para fingir que não escutava os gemidos. Tinha medo do escuro e da solidão, mas enfrentava-os como um toureiro frente ao animal terrível. E isso, claro, doía. Porque ela se tornava íntima do touro, amava-o, e não conseguir acariciar sua cabeça negra e altiva era muito triste. Vivia essa relação de amor e ódio com sua própria introspecção, empurrava pro escuro todos os pormenores que podiam aguardar um pouco mais. Os dias ensolarados eram alegres por fora e tristes por dentro: lembravam-na daquela peça ausente em seu tabuleiro. E ela passava as manhãs num jogo macabro de esconde com seu próprio vazio, para cair estatelada ao fim do dia.

2 comentários:

Joana Masen disse...

Eu que também venho acompanhando seu crescimento como escritora, me orgulho de ver como você ficou profissional, desde as nossas rodas musicais na faculdade, e nossas conversas poéticas. Posso dizer que, da mesma forma que acontece com você, também reconheço seus textos na primeira linha, como esse que acabei de ler. E a cada linha sua que leio, me torno ainda mais sua fã.
Bjos!

Cris Linardi disse...

Lisonjeada, querida.
Bjk.