quarta-feira, 23 de março de 2011

Modernidade

foto: Strany

Comigo não! Eu que não fico aqui esperando por príncipe nenhum! Essa história de encantado tá por fora. E esse cabelo? Como alguém pode imaginar deixar o cabelo desse tamanho? É impraticável cuidar de um cabelo assim nos dias de hoje. Muito trabalho, lavar, escovar, trançar, quase todos os dias, sozinha, sem ninguém para dizer se está feio ou bonito, sem um espelho para poder ver se fico melhor de tranças ou de rabo de cavalo... Se fosse a minha mãe, com certeza já teria cortado, que ela não ia ficar cuidando dessa cabelarra o dia todo, mas a tal da bruxa má que me prendeu nessa torre fedorenta acha que, como vivo sozinha, posso passar os dias a cuidar dos cabelos. Não me compra um bom shampoo, nem um creme de pentear para facilitar o meu trabalho. Até hoje não entendo o que o meu namorado viu em mim, já que estou sempre usando esses vestidos horríveis que não valorizam em nada o meu corpo, não faço uma maquiagem sequer, nunca tomo sol e minha pele é tão pálida! E meu cabelo está sempre cheio de frizz. Mas ele vem me ver todas as noites, apesar da dificuldade de escalar a parede da torre sem escada, apenas agarrado à minha trança. Eu nunca tive coragem de dizer para ele que machuca muito a minha cabeça içá-lo janela acima, porque não quero magoá-lo, já que ele está um pouquinho acima do peso. Dizem que a bruxa é mais pesada que ele, mas isso é apenas ilusão de contos de fadas, já que a bruxa está pele e osso, e eu consigo levantá-la facilmente. Outra coisa que eu não entendo é como os homens sempre pensam que mulheres que vivem sozinhas são fáceis. Eles sempre querem se aproveitar da gente, mas comigo não! Eu sou difícil, só jogo as tranças se o cara me interessar, e, depois que ele está comigo aqui na torre, também não dou mole. Para casar comigo tem que merecer. A bruxa sempre me diz que vou morrer sozinha aqui nessa torre, mas ela nem imagina que estou prestes a fugir. Vai ser um susto para ela, tenho certeza, quando me chamar e eu não aparecer na janela para servir de escada para aquela megera. Eu vou é curtir a minha vida fora daqui, enquanto ainda sou nova e bonita. Guardei embaixo do travesseiro uma tesoura que pedi para meu namorado trazer, assim que ela sair de meu quarto hoje à noite, vou acabar com essas tranças ridículas e sair correndo daqui. Nem vou esperar pelo meu pretendente. Comigo não! Não vou perder mais tempo cuidando desse cabelo, que não está adiantando nada mesmo, ele está cada vez mais feio e sem vida. No caminho, passo em algum salão de beleza e faço uma daquelas transformações que passam na TV. Isso mesmo! Vou embora dessa fábula ordinária e machista, e ainda deixo os pedaços das minhas tranças para a bruxa guardar de recordação, se quiser.
PS: para meu pretendente, minhas últimas palavras: “Isto não precisa ser um fim, mas sim um recomeço, ou o começo de algo mais doce. Será assim porque eu quero que seja e ponto. Se quiser vir comigo, te espero, mas se não quiser, eu não to nem aqui. Deixei de ser a lagarta, criei asas e voei... não sei se volto.”


2 comentários:

Gih disse...

Me apaixonei... estou aqui boquiaberta sem coragem de dar um passo além... coisa de amor a primeira vista...
Não há como não seguir o blog...
li um pouco de cada um e estou encantada por todos!
Parabéns por esta união tão rica e obrigada por compartilharem toda esta beleza!

Cris Linardi disse...

Joana!!!! Que texto criativo, inteligente e divertido! Parabéns! Olha, vou imprimir e colocar no mural da escola, mencionando que vc palestrou por aqui, tá?
Bjks!