sexta-feira, 16 de maio de 2008

A Grande Cidade

Caminhando alguns passos mais, estacou diante da via. Sentou-se ao chão, olhando os veículos que corriam a sua frente. Cansara-se. Resolveu esperar algum pedestre, para pedir-lhe alguma coisa, mas quase não passavam pessoas ali. As que se aproximavam, quando não atravessavam a pista, davam-lhe um simples cumprimento, um “sinto muito”, um rosto virado, ou nada disso, quando passavam diante dele como se não existisse.
Parece que a vida terminara ali. Estava cansado. Percebeu um enorme caminhão descendo a ladeira, calculando que estaria ali, na sua frente, em 1 minuto: era a sua chance de se encontrar pessoalmente com o Senhor, mas..., desistiu da idéia, pois não tinha coragem e nem forças para levantar-se dali.
O caminhão passou velozmente, trazendo uma onda de vento que lhe trouxe um pouco de alívio, mesmo que momentâneo, ao calor. Pensou novamente em se levantar, mas desistiu, permanecendo sentado no chão, à espera de qualquer coisa.
Mal percebeu o Sol se pondo. Seus últimos raios iluminavam a cidade, enquanto os milhares de trabalhadores voltavam para casa, numa agitação e correria que ele nunca percebera antes. A multidão o distraiu durante bastante tempo, mas nas altas horas da noite, se viu só. Ao longe uma coruja voava, provavelmente caçando para os filhotes.
Tentou se lembrar dos pais, mas não conseguia. O pensamento lhe vinha desconexo: era talvez conseqüência da bebida. Ou da fome. Ou quem sabe, dessas duas únicas malignas companheiras que insistiam em fazer-lhe companhia já não sabia há quanto tempo.
E filhos? Tivera filhos? Conseguia se lembrar vagamente de algumas mulheres, mas não de crianças. Na verdade, nem seu nome sabia com certeza. Seria Tonho, Totonho, Toinho? Algumas pessoas já o chamaram desta forma. Outros já o tinham chamado de “Pé de cana”, mas achava que isso devia ser um apelido, coisa assim.
Após alguns minutos a coruja desaparece. Veio o silêncio. Sozinho na cidade, sem nome, sem história, sem futuro, abaixou a cabeça, e dormiu.
Acordou nos primeiros raios da manhã, com o burburinho da multidão. Viu os mesmo carros, as mesmas pessoas, os mesmo paletós passando diante de si, que continuava na mesma posição, na mesma agonia e com as mesmas roupas surradas da véspera, embora poucos se apercebessem disso.
Para se distrair, começou a prestar atenção na conversa das pessoas:
“... pelas pesquisas o governador se reelegeria... ”
“ ... e a festa da Carol, no sábado?... ”
“ ... tenho uma prova amanhã... ”
Governador? Festa? Prova? Não sabia o nome do governador, não ia a festas há muito tempo, mas, em questão de provas, era um profissional: poucas pessoas naquela cidade entendiam de provações como ele. Disso tinha certeza.
A sede e a fome começavam a castigar-lhe, no entanto, permanecia sentado. Na hora do almoço (dos outros), uma chuva implacável caiu sobre a cidade, lavando-lhe o corpo e matando-lhe a sede. Por volta das 4 horas, o Sol reapareceu, aquecendo seu corpo e animando-o novamente. Sentia mais uma vez esperança no mundo. Sentia-se bem. Porém, algumas horas depois, a fome voltava novamente. Mas como?? Ouvira numa dessas conversas dos pedestres que o Sol era a verdadeira fonte da vida... Porque continuava a sentir fome?
Pensou em sair dali a fim de procurar alguma coisa para comer, mas não tinha forças. Temia tentar se levantar e cair no chão. Já pensou se desmaiasse com a queda e as pessoas o levassem pro hospital? E se os médicos o julgassem morto? Não queria correr o risco de ser enterrado vivo.
Procurou alguma coisa na calçada, mas só enxergou algumas formigas, que, ora meu Deus, era um homem, não comeria formigas... mas...
Enfim, as formigas acabaram lhe saciando a fome. Mas só por alguns minutos.


A noite caiu novamente. Quando se viu mais uma vez sozinho, procurou a coruja, mas não a encontrou. Uma ligeira tontura o acometia. Pediria à coruja um pouco de alimento, mas ela não apareceu. Ninguém apareceu.
Abaixou a cabeça. Ninguém, no outro dia, veria as lágrimas no chão. Com a cabeça baixa, pensou em toda sua vida, em todas as imagens, pessoas e lugares por onde passara antes, até chegar ali, próximo a um viaduto, a poucos metros de uma via.
Dormiu. Dormiu pesadamente. Mas não acordou mais.


Seu corpo continuou na mesma posição, com a cabeça pendida entre os joelhos. As pessoas mal o percebiam. Permaneceu ali, estático, por um, dois, três dias. Seu corpo se desmanchava lentamente. A coruja, durante a noite, o visitava, mas só nos primeiros dias (os filhotes reclamaram a qualidade da carne). Após alguns dias, restaram-lhe somente os ossos.
O governador se reelegeu. E para comemorar resolveu construir alguns jardins pela cidade.
Os trabalhadores chegaram com um grande caminhão de terra para cobrir o terreno. Não se importaram com os ossos, provavelmente julgando que fossem de algum cachorro. Alguns reclamaram da limpeza pública. Por fim, cobriram toda a área, incluindo seus restos, com a terra, e, por cima, plantaram belas flores brancas, amarelas e vermelhas, que melhoraram o aspecto daquela área, como que sepultando de vez a decadência e a miséria que por ali rondava. Os jardins foram cercados, a fim de evitar que crianças de rua, cães e mendigos permanecessem ali, denegrindo o ambiente. Aliás, a cerca fora sugestão de alguns pedestres, incomodados com a presença constante de um mendigo semanas antes.
Pela primeira vez, Antonio de Melo Alencar estava protegido.


Mil anos se passaram. Arqueólogos, que talvez sejam no futuro a principal profissão, desenterram as ruínas da grande cidade. Encontram um dos principais viadutos e, próximos a ele, os restos mortais de um homem.
Retiraram aquelas verdadeiras relíquias com todo o cuidado. O que faziam ali, no centro da cidade, longe dos cemitérios?
Fizeram exames, estudos, análises, tantos que conseguiram descobrir até a posição em que o homem estava quando morreu.
E vieram filósofos, e sociólogos, e biólogos estudar-lhe os restos. Era a descoberta mais importante dos últimos tempos. A imprensa mundial acompanhava tudo, extasiada. Após alguns meses de exaustivos estudos e debates, os cientistas reuniram a imprensa, para transmitir ao mundo as conclusões sobre aquele importante achado.
— Temos a honra de poder satisfazer a curiosidade de todos à respeito dos ossos encontrados sozinhos no centro da grande cidade. Pelos nossos estudos e exames, chegamos a uma conclusão: este homem, encontrado sozinho nas ruínas, era provavelmente um grande líder, uma pessoa muito respeitada pela sociedade, pois primeiramente, morreu numa atitude de grande contemplação espiritual, e, por fim, em uma prova de grandioso respeito das pessoas que o cercavam, por sobre seu corpo foi construído um grande jardim, com belas flores brancas, amarelas, e vermelhas...

3 comentários:

Deveras disse...

Beleza de conto. Já o conhecia de outras paragens, mas só me apercebi disso quando o mendigo morreu. Uma crítica social feita com luva de pelica; sem precisar meter o dedo na ferida aludiu aos fatos criando uma estória em cima.

ficanapaz

Larissa Marques disse...

Forte, engajado, gostei.

Klotz disse...

Também já tinha lido. E como da primeira vez achei muito interessante a idéia de deixar o mendigo apodrecer nas calçadas da indiferença.