sábado, 24 de maio de 2008

Um momento estéril

tela de Octávio Ocampo

UM MOMENTO ESTÉRIL

Nenhum poeta está no quarto
onde a mãe recebe um pedaço do filho.
Aquele que ela amara de bem antes do parto.

O filho não devolvem, enviam uma bota
que ela nunca engraxou – suja de sangue,

_________________________{sem brilho:
o calçado que o levou em sua última rota.

O sangue também não é seu, de linhagem:
é de alguém que ele pisara na garganta,
que aos pedaços recebeu outra mãe,

________________{em outra bagagem.

Nenhum poeta está no quarto
onde a mãe recebe um pedaço do filho.
Aquele que ela amara de bem antes do parto.

*

4 comentários:

Marcos Côrtes disse...

Não haveria poesia na morte?
Ou não há poesia nas ilusões maternas?

Filhos se cria para o mundo ; )

Glauber Vieira disse...

Belíssimo texto. E infelizmente atual.

Flávio Otávio Ferreira disse...

na guerra não há tempo pra compaixão, só a morte completa o ciclo vertiginoso em que decanta o amor materno, daquela que, na ânsia de ver o filho voltar, recebe apenas "os pedaços" emoldurados em uma medalha ou honraria qualquer...

Larissa Marques disse...

fã incondicional!!!!
quero mais livros!!!
estou editando agora, ok?