terça-feira, 18 de novembro de 2008

Viagem Clandestina

Depois de seis anos trabalhando quase ininterruptamente, eis que vi na minha demissão a oportunidade de ouro de fazer uma viagem (pobre é assim mesmo, só viaja com o dinheiro do acerto ou para correr da seca). Escolhia entre vários destinos possíveis: Caximbó do Aterro, São João da Piriquituba, Taiobópolis e por aí ia, quando meu amigo Batata chegou quase quicando:
- Aí, fiquei sabendo que você tá querendo viajar!
- Querendo não, eu vou passar uns dias no interior, descansar, pescar, sei lá.
- É o seguinte: estamos, eu e o Juvenal, ajeitando para ir para a fazenda da tia-avó da prima da cunhada da minha irmã...
- Como é que é?
- Enfim, a fazenda é de alguém conhecido, tá afim de ir?
- Olha, eu não sei...
- Vai um monte de mulher junto. Só as gatas. – isso merecia uma longa reflexão.
- Que horas que vocês estão querendo sair?
- Sabia que você ia topar. Mas ó, tem que dar um dinheiro para rachar a gasolina.
- Ah, isso é o de menos.
Ajeitei “trintão” na mão do Batata e marcamos de sair no sábado logo de manhã. Estava tão animado para viajar que nem me importava do risco que corria; no geral, todo e qualquer programa idealizado pelo meu amigo sempre dava em merda. Sem contar que quando ele dizia “só as gatas”, na verdade se resumia a uma ou duas bonitinhas no meio de meia dúzia dos melhores canhões Krupp.
O sábado nem bem havia batido as sete da matina, eu e o Batata esperávamos nossa carona no lugar combinado. Diferentemente de outras oportunidades, tudo se materializou na mais perfeita ordem. Juvenal chegou na hora marcada, dirigindo seu valente Gol 1.8, ano 1995, inteirinho. E ainda por cima, cheio de mulher. E mulheres bonitas, na verdade, lindas! Aquilo era uma visão do paraíso:
- Irmão, tu é o cara.
- Sabia que você ia curtir. Vai por mim, essa viagem vai ser inesquecível.
O que deve ter sido inesquecível foi a cara que fiz ao saber do plano do Juvenal; como as três beldades ocupavam o banco traseiro, ele ia no do motorista e o Batata era passageiro-que-abre-porteira-e-conhece-o-dono-do-lugar, não restava assim nenhum espaço dentro do veículo para mim. Teria que ir de ônibus e eles me pegariam na rodoviária do povoado próximo. Era isso ou quando eu chegasse lá que arranjasse uma carona.
- Ó, é muito fácil. Todo mundo conhece a fazenda por lá, além do mais, é encostadinho na cidade, você consegue, safo como é.
- Sei não, Batata. E a grana que eu dei pro gás?
- Pois é, as minas tão meio na pindura, sabe como é.
Assim contra todos os meus instintos, lá fui eu de ônibus para o interior. Acomodado em uma das poltronas do fundo, saquei minha garrafinha de alumínio e tomei um belo gole de bourbon para acalmar os ânimos.
- O Batata me paga essa. Na volta ele é quem vem de busão. – Depois da metade da garrafa eu já dormia o sono dos justos e o dos injustos.
Acordei com o sol esturricando na cara. O ônibus, parado em uma dessas espeluncas de beira de estrada, estava com a tampa do motor aberta e cercado por peças, porcas e parafusos por todos os lados.
- É grave? – perguntei ao motorista que tirava uma de mecânico.
- Fosse gente – dito na pureza do sotaque soteropolitano - podia pedir a extrema-unção, visse?
- Batata, seu filho da mãe.
- Cuma?
- Deixa pra lá. Continua com o moribundo aí.
Adentrei as espetaculares instalações da birosca sentindo meu estômago acordar. E pelo jeito estava em uma mal humor homérico. Esse negócio de biritar sem beliscar nada ainda assassina meu fígado. Talvez até leve o bucho junto. Decidi dar uma olhada nos petiscos; torresminho, kibe com ovo, salsicha empanada, pé de porco, coxinha; o colesterol nadava de braçada ali e ainda dava pirueta. Apontei o pote estranho no canto.
- Aê, que é isso?
- Batata em conserva, vai uma?
- Nem na bala. Vê uma coxinha e um kibe
- E para beber?
- Uma pinga. Melhor, põe logo duas num copo só.
- Para o abrir o apetite, hein? O dono da birosca dava seu “sorriso 1001”, onde somente dois incisivos apareciam, cada um no seu próprio canto.
- Não, é para ajudar a empurrar esse treco pela garganta.
Acho que ele não gostou muito da minha crítica culinária. Nisso uma longa fila de crianças, uma escada perfeita do menor ao maior, sai do banheiro e começa a pipocar pedido de “quero isso, quero aquilo” daqui e de lá. Se a coxinha e a pinga não me dessem uma baita azia, com certeza esses pentelhos conseguiriam. Resolvi ir para fora fumar um pouco e ver a quantas andava o conserto do ônibus. Ou o milagre da ressurreição. Olhava desanimado para aquele monte de peça espalhado pelo chão, quando um anjo travestido de gente abriu a porta de um Doblô estacionado ao lado: o cabelo louro esvoaçante, uma bata branca que revelava os contornos perfeitos de um corpo bronzeado, o provocante perfume que me agarrava pelas narinas, a hipnose dominadora daqueles olhos azul-acinzentados que incrivelmente se dirigiam para mim. Aproveitei a filmada para colocar meu charme de Bogart do Cerrado em prática. Saquei um cigarro com extrema maestria e colei com a divindade:
- Fogo? – dois minutos depois e ela estava quase me passando a senha do Orkut dela. Tenho que admitir, aquele curso de paquera por correspondência valeu cada centavo. Quinze de papo e já sabia que ela era viúva, tinha perdido o marido dois anos atrás, Gérson Ganso, ex-zagueiro do Catulense. Em meia hora, batuta, tinha descolado uma carona com a gata. Ia para a mesma direção, tava dirigindo sozinha, precisando de ajuda na condução, isso é o que chamo de sorte. Quando estava tascando a primeira beiçada, me vi repentinamente cercado pela turba de crianças que havia visto pouco tempo antes, dois casais loirinhos e um japonesinho perdido no meio – ela virou-se repentinamente e animada:
- Crianças, boas novas... – rodopiei-a – Irmãos?
- Filhos. – virou-se de novo – Este é o Juliano, ele vai viajar com a gente daqui para a frente. Esses são Gilson, Gelson, Gérson Júnior, Gilda, Gilvânia, e o Wanderley.
- Wanderley?
- É... O pai dele era nosso jardineiro – sussurrou.
Duas horas de estrada depois, entendi porque ninguém se arriscava a viajar com ela. A doida ia pela estrada como se fosse o Mister Magoo bêbado. Andava um pouco em uma faixa, um tanto bom na outra e seguia cantando junto com a gurizada.
- Eu arrebento o Batata.
- Que cê disse, amor?
A luz amarela, avermelhou naquele ponto. Nem tinha ido pro rala e rola com a gata e ela já tava me chamando de amor? E ainda por cima com aquela molecada cantando “com quem será” o tempo inteiro?
- Arrebentar é pouco. Eu mato o Batata.
Agarre minha garrafinha da sorte, tomando altos goles para ver se conseguia segurar as pontas. A doida aumentava o som do carro e ia gritando as música (aquilo não era cantar, não senhor) junto com os filhos, em um coro desafinado que lembrava o urro de uma manada de quatis com dor de barriga. Concentrei-me em imaginar diversas formas de tortura chinesa para aplicar em meu amigo Batata. Uma chuva fina que começou a vir de encontro a nós e rapidamente se transformou em uma tempestade torrencial, que não deixava ver um palmo à frente. Tentei dizer para a gata ir mais devagar, mas foi como se pedisse para enfiar o pé no acelerador; a estrada foi rapidamente ficando para trás, as crianças gritando, aquela música do fim do mundo, quando o carro começou a girar sobre o próprio eixo, totalmente desgovernado, quando atingiu as amuradas de uma ponte, me lançando no vazio. Ainda pude vislumbrar, enquanto era lançado janela afora, que alguns dos garotos rolavam de rir, achando achavam que aquilo era só mais uma brincadeira. Uns belos filhos da puta, esses sacanas.
E então foi o silêncio. E junto com ele um mar branco, cheio de nada, onde eu parecia flutuar livre de todos os meus medos e receios. Comecei a me dar conta então, que finalmente estava encontrando aquilo que procurei minha vida inteira. Eu estava começando a desfrutar da...
- Vai ficar esticado aí o dia inteiro?
Olhei para o lado e lá estava um senhor vestido de branco e que tinha uma cara engraçada, que pareceu se transfigurar do nada.
- Como é que é?
- Tenho um negócio para te propor. Uma proposta tentadora.
- Propor, o quê? Que estória é essa de negócio, se eu nem sei onde eu estou...
- Ai, ai. Mais um desavisado. É o seguinte; você tá tendo uma E.Q.M.
- E.Q.M. ?
- Experiência de Quase Morte. Era para você ter visto um túnel, vários parentes, o resumo da sua via, mas estamos em uma fase de corte de despesas (morre gente toda hora, o custo dessa parafernália toda é uma nota!), daí que pulamos a introdução. Pois bem, você sempre foi um cara mais ou menos a vida inteira, agora tá entre lá e cá...
- Mas o que realmente me aconteceu?
- Era para ser coração. Básico, rápido e um dos meus favoritos. Mas você se engasgou com um pedaço de coxinha.
- Quer dizer que eu tô morrendo?
- Isso mesmo.
- Ah, se eu morrer eu mato o filho da mãe do Batata! Peraí, quem é você?
- Já me chamaram de vários nomes: Caronte, Nhunhabá, Volstour... Agora me chamam de "o sacana de branco". Sou eu quem leva a galera de um mundo ao outro, bicho, chuchu beleza...
- "galera", "bicho", "chuchu beleza"?
- Pô, xará, os sessenta foram de lascar. Muito psicotrópico, sacou? Mas voltando aos negócios.. Mesmo você sendo um cara meio maneiro, a probabilidade de pegar o elevador descendo tá muito grande.
- E o que eu posso fazer para melhorar isso?
- Seguinte: tava precisando, não, na verdade, tô querendo pegar aquela dona do Doblô, a da mulecada, mas sem a mulecada, entendeu?
- Entendi. Mas se você pode tanta coisa, porque não vai atrás dela sozinho?
- Questão de horário, meu filho. Não tá na hora dela. E vi que você tinha um jeito especial de lidar com estes assuntos. Daí juntei uma coisa à outra.
- Bom, é que... – Será que minha honra começou a ter preço?
- Ah, vamos lá, você tem que me ajudar. – parecia que o velhote não via uma mulher há séculos. No fundo talvez isso fosse verdade, afinal das contas.
- Então você tem como me fazer voltar?
- Claro, seu futuro está muito incerto. Parece até que está sendo escrito por várias mãos. Nunca vi nada parecido. Posso dar um jeito de você voltar no momento propício.
- Mas se eu voltar e fazer esse acordo contigo, quando passar por aqui de novo, pego o rumo de baixo sem escalas, não?
- É verdade. Mas cê já tá quase lá mesmo. E aí topa?
Não me lembro se acenei a cabeça em um sim ou se disse alguma coisa. O que sei é que senti um puxão e acordei deitado em uma ambulância, sacudido pelo choque do desfibrilador operado por uma enfermeira ruiva e extremamente peituda.
- Sorte sua nós estarmos bem atrás quando aconteceu o acidente, gatinho – Eu estava a salvo. Por enquanto.
- E o pessoal do Doblô, as crianças?
- Estão todos bem. Se estivesse usando cinto de segurança, não seria jogado fora do veículo – ralhou com fingida raiva. No final ainda deu uma piscadela.
- Batata, brother – pensei – te devo uma, cumpadre.
Em outra dimensão, um velhinho vestido de branco e extremamente grilado gritava aos quatro ventos:
- Concorrência desleal, essa tal de tecnologia!

P.S. Conto feito em partes, algumas postadas na comunidade "Contadores de Causos":
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=21661322&tid=2491747672918963349

2 comentários:

Larissa Marques disse...

conheço vários Batatas, como o de seu conto!
muito bem escrito, e que bom que está conosco!
beijoca!

Glauber Vieira disse...

Beleza cara, o texto é grande, mas me senti instigado a ir até o final. Muito boa a história.