sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A liberdade de uma vida

Lucien Freud - Naked girl asleep (1968)


Um pouco de contradição, vodca, introspecção, intelectualidade, romantismo e amizade. Coisas necessárias para o sentir da vida num final de semana. Ah, ouvir rock – odeio rock! -, mas Janis Joplin é um pouco de tudo isso que tenho vivido.

Uma sensação de liberdade, perdição e vontade de se encontrar mesmo estando perdido num decaedro. No meio do mato, num ambiente inusitado e pouco relevante se comparado a tudo já vivenciado por um mero adolescente recluso dos prazeres triviais. Cheio de vontades, dentre elas a de sentir o que um corpo comum possa sentir. Acho que os jovens do início do século 21, assim como os outros, sentiram a mesma coisa nesses dias, se não todos, pelo menos aqueles preocupados em dar significado a sua passagem por esse mundo louco e sarcástico... Não preciso trocar o telefone celular por um com câmara acoplado, nem com visor colorido, afinal, só preciso de um telefone. Preciso!? Do que preciso?

Revolucionar o dia como naquele tempo pelado e entorpecido se tomava as ruas, numa vanguarda intrínseca às razões dos sonhos. A utopia sem fim, rebelada com simultaneidade e nudez, entre correntes e opressões lacrimogêneas... pelas Sorbonnes e o desfrute da carne transformando o momento de uma humanidade frustrada em suas respostas.

Os grafites e a cola nos braços, dividindo espaço com lenços e reboques. Em transgressões fictícias, no entanto mordazes, tornaram-lhes jovens. Os tornaram capazes de sentir, aquilo que hoje já nem sinto quando teatro minha toxidade numa rua urbana sem muro vivo, inscritos de artes como o nascimento do homem ao ser fecundado no óvulo. Quando Janis Joplin surgiu? Por que a música existe? Qual o propósito dessa mulher, que indiferente de muitos roqueiros de seu tempo até o nosso, sofrem num mundo insólito e superdosado, ou se marginalizam pela peculiaridade de seu psiquismo? O que seria a marginalização intelectual?

Dopar-se até o cérebro escarnecer a alma? Ou ter no gozo o ópio da pureza? Eu quero ceifar esses medos e gritar que o intelecto me cega no mundo que existo sem existir. Virar do avesso com meu sexo barato, comprado no canal aberto da madrugada vazia. Sem entender que a transgressão selvagem e a criação deusificada caminham juntas na mesma calçada restada às prostituas sem nenhum intelecto continental.

Não sei se preciso de álcool para entrar em sintonia com aquilo que realmente seja. Sei que a sensação de me sentir flutuar num mundo concreto e limitado faz bem por alguns segundos. Quando é impossível ser um cara de 23 anos e não se lembrar das vontades escritas por Maria Mariana antes que tudo se acabe. O sentido de tudo talvez não exista: a nostalgia, alegria, paixão. Vontades talvez não existam. O mundo talvez exista pelos simples fatos... algumas lágrimas, risos e uma história para contar sobre eles. A teleologia desses termos deixo para quem queira.

A idéia de padecer sempre me veio como uma solução difusa, embora, pertinente para o acometimento da tristeza e a peculiar melancolia facial expressada rotineiramente. O que contradiz o fato de eu ser o oposto daquilo que pensava ser, e que hoje de manhã acreditei ser e a tarde já não era mais. Mas agora a noite já nem existo mais. O que me faz ser o paradoxo contínuo de tudo que acredito ser diariamente, numa inflexão como medida para todas as coisas, visualização errônea e desnecessária das coisas. Imprudência nas atitudes e desmantelo daquilo que deveria ser tratado com esmero e delicadeza.

A morte me parece uma pluma suspensa no ar, pairando sobre as folhas da figueira, abacateiros, hortênsias, jasmineiros... pouso forçado na terra. Pluma de algodão disforme; penugem de ave disforme; dente-de-leão disforme como o vento leve como a vida nesses dias inteiros de lucidez. Embora, tanto queira abrir a porta e as janelas para deixar a esperança entrar na casa que abrigo no espetáculo trazido pelo vento da tarde. O corpo como uma semente flutuando alto, alto e perdido. No refluxo dum sortimento interiorizando-me.

Um comentário:

Larissa Marques disse...

O texto não pode ser desprezado tem uma ternuramas é avassalador, reflexivo e lindo. Obrigada por brindar meus olhos com essa maravilha.
Feliz duplamente pois até o fim do mês nosso livro fica pronto. beijo.