sábado, 21 de julho de 2007

Anteontem, ontem, antonte e o amanhã

Foto: Adenor Gondim




A porta da rua está aberta e observo do outro lado da calçada o claro sol que aos poucos ofusca meus olhos, como nas lições de Maktub talvez, ou mesmo na ânsia de tentar alcançar a luz que me cega. Os dias têm passado lentamente quando tudo parece caminhar para o foco, embora sejam lentos, naqueles momentos em que a têmpora nervosa luta consigo em busca da ausência.

Quince Jones desperta desejo em mim como Maria Bethânia e a terra. São elementos naturais que me provocam o gozo do apartar... um caminho simples pela estrada de terra que me cerca neste instante instigando vôos lisérgicos dentro do mais puro sentido de resignação.

Ontem eu escrevia cartas, recitava poemas e sonhava viver eternamente. Ainda não existiam calamidades nem várzeas à serem colhidas. O mundo era opaco, apesar da clarividência solar e do ressoar lúgubre dos pardais. Não existia a modernidade do silêncio nem mesmo a frieza da solidão. Mas, sim, um cavalo de madeira feito com o rodo velho cheio de farpas arranhando as pernas. Havia emoção salutar e saltitante, o grito, o vívido pensamento leve da eternidade. Agora penso ter sido isso, unilateralmente.

E quando descobrimos que durante a tarde as borboletas não dormiam, nem nos comovíamos com isso, nem dormíamos com elas. Beirávamos a cotovia burlando o ocaso desacreditando mesmo crentes de que tudo os pudesse insurgir. Uma bomba presa nas vísceras sem nome, cordas dadas como no brinquedo do vizinho, baterias novas com a equivalência de um riso em desuso.

Há frouxidão no tempo solto e pleno, sem a sutil consciência do que passou e, por mais que a vida se demonstre cíclica, jamais a veremos adequada ao curso presunçoso do que foi vivenciado. Mesmo que haja, nesses dias, ramificações esverdeadas de uma grama original, massageando nossos pés aos passos curtos em direção do futuro, mesmo que ofuscado. Ouvindo, enquanto exista direção, uma luz brilhar dentro, brilhando intensamente ao som de Jevetta Steele e até Ted Hawkins expulso do Bronx pra ser jogado num lixo do Itanhanhém.

Enquanto a porta se fecha esqueço que tenho braços abertos e gosto de música no cérebro podendo tocar. Esqueço do sol amarelo na rua jogada para fora de mim, e afrouxo a vida com que insisto chamar de minutos, fazendo-me esquecer do chinelo e do bermudão jeans, a bicicleta e o coração de Elis livre, livre entoando a jovialidade que senti nos dias em que ouvia uma multidão desenfreada tatear.

Quando a hora mágica acertar o caminho, quando eu me perder deste caminho não vou querer encontrar, nem lembrar de mim nenhum segundo. Ruflarei asas num pensamento distante onde ninguém me encontre perdido, pois que ninguém se encontre em si, nem eu comigo, fechando o caminho à usura, o afrontamento e a solidão das emoções que nos comovem e aos minutos... sim, aos minutos que nos mostra findos.

2 comentários:

Deveras disse...

Um bom texto para refletir... Maneiro.

ficanapaz

Larissa Marques disse...

Gosto dessas passagens que ficam impregnadas na alma da gente, embotadas de um certo sentimento de se sentir em casa, mas com a sensação de que ainda há algo fora do lugar. Lindo texto! Beijo!