sábado, 14 de julho de 2007

Manchete

Bandido estupra e mata anciã.


Traficante vende, não entrega e esfaqueia.


Parou no sinal e perdeu o carro.


Pivete chapado mata por um relógio quebrado.


Pedreiro faz sexo com nenê da vizinha.


Derrame de sangue na rebelião do presídio.


São manchetes diárias dos nossos jornais. Na verdade não são manchetes, são apenas chamativos das páginas internas do jornal. Às primeiras páginas cabem as verdadeiras notícias de destaque: política, economia e esporte. Os fatos corriqueiros de morte e violência, de tão comuns ficam com as páginas centrais. Os acontecimentos só recebem relevo quando o algoz ou a vítima são pessoas de notório destaque. Se o seqüestrado for apenas rico não receberá sequer uma linha dos jornais.
É a banalização da morte, a vulgarização do crime. É o cotidiano. Ninguém mais se importa.
Os presídios estão superlotados, os policiais não têm formação, os processos percorrem um lento e burocrático caminho, as leis estão obsoletas e se contradizem, sempre há mais uma instância a ser recorrida, a corrupção atinge até juízes. As estatísticas informam que menos de 20% dos criminosos acabam condenados e destes, menos de 15% cumprem toda a pena.
O bandido tem a certeza da impunidade. Ao cidadão cabe esperar apenas pela justiça divina. Ao perceber à sua volta um rastro de terrores ela passa a desejar a morte do malfeitor. A morte preferencialmente em julgamento sumário e execução em praça pública.
Se não houver uma reviravolta em todo sistema, breve tornaremos à Idade Média e teremos como manchete: Povo brasileiro exige pena de morte.

6 comentários:

Me Morte disse...

Um plebiscito? Seria bom. Mas do jeito que a justiça é feita, inocentes pagariam pelos crimes. Não acho que o Brasil tenha estrutura para uma pena de morte.
Deixa a pena de morte só nas ruas, como já se vê.Bom texto. Gostei.

Larissa Marques disse...

Já existe a tal pena de morte no brasil, embora poucos a notem. Mas o pior é a pena de vida. Gostei do texto, beijo Klotz.

L. Rafael Nolli disse...

Acho a pena de morte uma coisa absurda. É a clássica forma organizada, democrática do Estado cometer os seus crimes. Concordo contigo, uma reviravolta geral!

Glauber Vieira disse...

Concordo com seu texto Klotz, linchamentos e esquadrões da morte, por exemplo, só existem por causa da impunidade.
É a primeira vez que leio um texto "sério" seu, e vc manteve a mesma qualidade dos demais. Parabéns!

Thorpo disse...

Situação crítica, construída de cima para baixo. A direita se alimenta de si mesma. Cria as condições limites que levam a atitudes cada vez mais reacionárias.

Deveras disse...

Muito pertinente o texto, Mestre Klotz... Percebe-se que sua visão do mundo é panorãmica e em "techinicolor".

ficanapaz!