quarta-feira, 11 de julho de 2007

A vingança de Anabela

versão "ficcional" para o caso Isabela Tainara em Brasília

- Foi o tio.

Olhei para Lulinha e balancei a cabeça afirmativamente. Ele estendeu as mãos para que eu soltasse as algemas. Acertei o tiro entre os sobrolhos.

Sim, menti para o bandido. Disse que o soltaria se confessasse, coisa e tal. Tratei-o sempre bem educado e calmo. Sou diferente do que ele tá acostumado: a intolerância, o linguajar xulo, a gritaria. Ele confiou em mim. É preciso conhecer o homem para ludibriá-lo.

Entrei no caso Anabela a pedido dum sujeito que viu o Lulinha perambulando no local onde a polícia achou o corpo da menina. Ela estava desaparecida há 56 dias, haviam achado seu crânio há mais de uma semana. O corpo foi encontrado só no dia seguinte. Pensaram que ela havia sido decapitada, mas descobriram que o crânio caiu num deslocamento do cadáver para escondê-lo. O sujeito me mandou um email assim que viu na televisão a polícia desconfiando do bandidinho.

As investigações estavam difíceis, a família parecia não colaborar. Descobriram, contudo, possibilidades sórdidas, um provável caso de vingança. Alguns anos atrás, o irmão de Anabela havia estuprado a prima. O tio, pai da menina, jurou vingança. Na época abafaram o caso, como se isso contornasse o problema.

Capturei Lulinha e ele confirmou a história. Disse que um cara o havia pagado para estuprar uma garota. – Até de graça. – Respondeu o bandidinho (que agora é comida de minhoca). Ele pegou carona com o cara e a menina, que parecia ser parente, foram para um matagal em Samambaia, o tio saiu do carro e Lulinha cumpriu o serviço.

- Você é um filho da puta. – Ela urrou. – Vai morrer com um tiro no sobrolho.

O bandidinho contou que não gostou da palavra, ficou com raiva. Quem era a vagabundinha para falar assim? Ele havia acabado de lhe botar no cu e vinha agora com aquela babaquice de tiro não sei onde, querendo tirar sarro de esperta? Deu um soco na têmpora da menina. Ela caiu com o pescoço sobre o câmbio da marcha, sua glote fechou. A violência do soco já a havia ferido seriamente com um deslocamento na nuca. Em minutos ela estava em convulsão.

- Juro, falei para ele levar a garota para o hospital. – Confessou Lulinha, algemado. – Mas o tio preferiu deixar a moça morrer. Disse que esconderia direitinho o corpo.

- Por que vocês mexeram no cadáver uns 20 dias depois, quando a cabeça caiu? – Perguntei.

- Fui eu sozinho. – Revelou. – O caso ganhou os jornais, os canas começaram a fuçar, resolvi esconder melhor a menina pois minha porra ainda tava nela, né? O tio deixou o corpo numa beira de córrego, disse que ia apodrecer. Se achava malandro, queria que me ganhassem. Me pagou em dinheiro, eu não teria como dedar o patrão para amaciar com os canas.

- O chefe de tudo, então...

Ele confirmou que foi o tio e atirei. Joguei o corpo na caçamba da camionete, cubri com a lona e liguei para o meu contato de um orelhão.

- Você estava certo. O serviço está encerrado.

- Como é? – Falou. – Você ainda não viu as notícias? – O silêncio o incentivou a continuar. – A polícia descobriu provas contra o tio. Barro e plantas no carro coincidem com as encontradas na área da desova, ligação de celular no dia do seqüestro da mesma área, até encontraram porra no cadáver. Divulgaram agora que estão procurando o tio para um exame de DNA. Com mandado e tudo.

Com o bandidinho morto no meu carro e a polícia ao encalço do tio, eu teria dificuldades em terminar a punição. A grande vantagem de caras como eu em relação à Justiça é que não precisamos de leis. Descobrimos o culpado e o executamos. Sem defesa, sem desculpa. Nenhum contraditório será capaz de justificar certos atos agressivos à condição humana. A eles, a morte. Uns requintes de crueldade também são benvindos em alguns casos aberrantes. Para o tio eu pensava em algumas decapitações de membros. Mas agora eu havia perdido a surpresa e a liberdade de ação. Justiceiros sempre agem na tocaia, contando com a surpresa da vítima. Em combates corpo a corpo sempre acabo machucado. A polícia me apavora. Cumpro todas as regras para sumir com os vestígios, porém posso dançar se agir muito perto das investigações. Tento sempre ficar na surdina. Teria que dar um jeito de pegar o tio sem me sujar.

- Sabem onde ele está?

- Acabou de passar por aqui. – Falou. – Eu queria te ligar mas você não tem telefone... – Choramingou.

- Alguém mais o viu?

- Todo mundo, né, o tio da Anabela tá na televisão. – O sujeito estava informado.

- Ligue para a polícia e diga que o que viu. – Expliquei. – Está tudo resolvido. – Murmurei.

Fui para a região de Samambaia. Larguei o cadáver atrás dum morro. O revólver com a numeração raspada deixei na beira da estrada. Estava limpo de digitais, indício que foi utilizado pelo assassino. Nem me importei se viram meu carro. As provas já estavam engatilhadas contra o tio.

A polícia chegou e logo atrás veio a imprensa. Acompanhei tudo de binóculos. O meu contato disse aos canas que o tio havia passado pela estrada em que fiz a armadilha. Acharam primeiro o cadáver, como eu previa. Buscaram ao redor e acharam o revólver. Concluíram corretamente que o responsável era o tio. A imprensa narrou as descobertas ao vivo e informou a caça ao indiciado. O tio foi preso em seguida. Foto na televisão, coisa e tal.

Revelada a vingança do tio, a sociedade se estarreceu. O sujeito que me avisou por email, no anúncio dum fórum de justiceiros, virou herói pela denúncia à polícia. Discursaram que o cidadão tem a obrigação de agir nos momentos difíceis. Eu o alertei que se citasse meu nome o mataria como a um cão. Ele respeitou o pedido.

Anabela acabou justiçada. O tio que tramou o crime certamente levará umas curras na jaula. O bandidinho virou presunto. A vida da moça foi encerrada por vingança à um erro do próprio irmão acobertado pelo pai. Na minha visão também são responsáveis, mas a polícia dificilmente encontrará provas para chegar até eles. Se os prende, ainda, os tribunais os soltarão por conta de bobagens jurídicas.

Talvez eu faça uma visita à antiga residência da moça, assim que a poeira baixar.

7 comentários:

[barba] Uonderias disse...

waaaw!!

Klotz disse...

Ei, preste atenção: sou seu amigo.
Isso me lembra antiga música do Erasmo: o homem que matou o homem, que matou o homem mau.

Me Morte disse...

Eu sei que são criminosos, mas os justiçeiros nesses casos de estupro ou pedofilia, me dão um tesão enorme. Devem sentir prazer em cortar suas vítimas aos poucos. Eu curto o Mão, talvez por isso, acabo de descobrir. Essa maneira de vingar as vítimas com crueldade, essa gana que todos teus contos tem, eu me vejo neles.Me identifico. Muito bom, muito mesmo.Minha vontade de exterminar com bandidos assim, sempre vejo refletida nos teus contos. Gostei.

Larissa Marques disse...

Nossa, sem palavras, ótimo texto.

Freddie disse...

Bem escrito! Parabéns.

Glauber Vieira disse...

É um bom texto. O anúncio do fórum de justiceiros foi ótimo!
Pra quem não é de Brasília, mato a curiosidade: Isabela Tainara era uma menina de 14 que desapareceu num bairro de classe média e foi encontrada morta 45 dias depois na periferia.

Mão Branca disse...

poisé. obrigado pelas palavras.

coitada da isabela.

o complicado é que este texto revela coisas que a polícia não deveria ter deixado escapar.