terça-feira, 7 de agosto de 2007

Invencionice Literária

Não sou como fui sempre. Talvez esta inquietude revele o que existiu debaixo deste ornamento esquálido; este corpo que se sustenta na descrença e incompreensão do fato de ser um vivente a caminhar sozinho junto à multidão de almas mutiladas.Abro mão da vida plausível que cultivei ao longo dos anos; funcionário público a despachar documentos na repartição, fazendo e refazendo relatórios, emitindo e omitindo dados, manejos necessários à profissão, para desvelar da loucura de ser escritor.Resolvi assumir a possibilidade de morrer de fome e, mesmo assim, tentar escrever uma história que se sustente por si só. Vivo minha solidão na intensidade necessária, sob a luz artificial, acompanhado de um ou outro gole de vinho seco que me seca a alma ainda mais. Sinto o vacilar do pensamento e, este vacilo se propaga, conduzindo as mãos ao ato incontinente de “masturbação filosófica” que me levaram a mundos e profundezas que desconhecia além das palavras.Converso e desconverso em meu íntimo. Imprudência. Sou assim, imprudente em atitudes. Precipito em decisões ilógicas e amorteço a queda em crenças vãs. Adultero minha credencial de literato para ter direito à prostituição gratuita, onde poderia chupar ossos e bucetas sem medo, nem vergonha. Sem o horror de ser destituído do Prêmio Nobel de Literatura e, continuar condicionado a escrever “romance de quinta” que enche os olhos das leitoras suburbanas e tupiniquins que desconhecem a valia dos clássicos. Nem dão à mínima se faz sentido ou não. Querem mais é se deleitar naquelas páginas melodramáticas que sempre terminam em final feliz.Em minha astúcia de coveiro e semeador, semeei discórdia por onde passei. Reinventei a escrita, rabiscando murmúrios de delinqüentes e transviados, enxugando os pratos cuspidos que tantos outros puseram de lado. Hediondo me tornei e, odiado firmei meu pacto de só dar ouvido aos loucos, irremediados do povo. E, assim fiquei em minha costumeira aflição de temer a morte e o itinerário que se constrói durante a vida. Meu futuro previ inusitado, mas, como prever o além vida(além morte)? Não há como julgar; aqui se faz aqui se paga. E minha conta a pagar já estourou o limite.

3 comentários:

Glauber Vieira disse...

O que é isso gente, pq um texto desse não mereceu comentários até agora? Vamos deixar de preguiça...

Bom, Flávio, textos autoreflexivos são altamente perigosos (como leões no circo), é preciso muito tato pra não resvalar pro piegas. E vc soube desenvolver o texto com maestria, ficou realmente excelente. Prosa da melhor qualidade.

Larissa Marques disse...

Bom Glauber, não precisa bater... Estive ocupada com a organização da Feira do Livro daqui de Brasília, por conta de organizar as apresentações do bar, numa folguinha, cá estou para comentar...Goatei muito Offer, que está esperando que não está no Bar do Escritor ainda? Beijo!

Flavio Carvalho disse...

É isso aí meu caro,

andando no fio da navalha
para não se tornar um homem
fragmentado,

essa jaula já está apertada,


abraços,
belo texto como sempre,