segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Pior

Quem nunca ouviu a clássica frase “eu podia estar matando, roubando, mas não, estou aqui pedindo”, ou então, “é melhor pedir do que está matando ou roubando”. Essas premissas são para muitas pessoas uma espécie de norteador ético. Elas se condicionam a três possibilidades: pedir, matar e roubar. Não passa pela cabeça dessas criaturas aquelas outras possibilidades, que grande parte de nós nos submetemos, o trabalho e o estudo.
Sei que as diferenças sociais existem, sei que o mercado exige horrores de cada um de nós quando participamos de uma seleção para emprego, sei que para muitas pessoas o nível de escolaridade é baixíssimo, mas, gostaria de saber por que existem exceções. Recentemente, aqui no Rio Grande do Sul, publicaram a reportagem de um rapaz que vivia em uma vila de papeleiros, ou seja, o rapaz cresceu em um meio miserável, o pai e a mãe catavam papel para sobreviver. Ele poderia ter adotado as premissas do coitadinho e sair por aí empunhando-as. Ele poderia estar lamentando e hoje ser um ninguém, mas não, ele se esforçou, estudou e conseguiu uma bolsa de estudos. Hoje faz educação física e estágio em sua área. Será que ele é alguém mais especial? Será que em seu lar os valores são outros? Nos habituamos a acreditar que as pessoas que estão em situações péssimas são incapazes de conquistar uma posição de destaque na sociedade. Alimentamos isso com moedas..., aquelas que servirão para comprar a bebida, a cola de sapateiro, aquelas que permitirão a disseminação de ideologias que contradizem a ordem natural das coisas. Para que possam viver em sociedade, os indivíduos precisam desempenhar bem o seu papel, e isso começa quando ocupamos a nossa posição de responsáveis por nós mesmos. Não há como eu, você, nós, sermos responsáveis pela conduta do outro, pelas necessidades do outro. Aliás, abro uma exceção aqui, o Estado é responsável sim pelas crianças desamparadas, pelos idosos que não tem família, pelos doentes que não tem amparo familiar.
Para que possamos buscar o bem comum, temos que evitar ser um mal para sociedade, sendo assim, rejeito esses três verbos: matar, roubar e pedir.
Outro dia, depois de ter trabalhado o dia todo, ter assistido uma aula de metafísica, aquelas discussões sobre ente e essência ainda latejando em minha cabeça, chego na parada da PUCRS e tem uma fila enorme me esperando. Enquanto aguardo o ônibus avisto o mesmo homem de todos os dias, pedindo passagem ou moedas, com o mesmo hálito de bebida destilada, com as mesmas roupas sujas. A moça que está em minha frente não lhe dá moedas, e fala qualquer coisa que, ele irritado responde: “é melhor ficar pedindo do que estar matando ou roubando”. Antes que ele chegasse em mim para me pedir qualquer coisa, respondi impulsivamente: “não roubar e não matar é um dever de todos”. Ele retrucou qualquer coisa, mas aí, a fila já estava andando. Depois fui pensando no que falei... e se ele resolvesse pôr em prática seu norteador ético? Certamente eu seria a sua primeira vitima. Por isso quando escuto alguém falando, “é melhor está pedindo do que estar matando ou roubando”, sinto que tem um bandido em potencial me pedindo moedas, sinto que se hoje ele não rouba e não mata, amanhã o fará quando lhe negarem moedas. Cada moeda dada certamente eles as cobrarão novamente. Irão sempre esperar de nós. De nós que, muitas vezes, formamos delinqüentes. Eu poderia estar matando, estar roubando, mas não, estou aqui escrevendo esta crônica para pedir mais um pouco de atenção com o ser humano. Se uma criança te pedir comida, dê comida, não dê dinheiro. Pergunte o seu nome, quais os seus sonhos, diga a ela que ela pode, diga que ela um dia será alguém importante e só fale em coisas boas. Muitas vezes um bom motivo para “Ser” já é o bastante para alguém alcançar o sucesso.

3 comentários:

Glauber Vieira disse...

Esse texto foi muito bem escrito e, só pra constar, concordo 100% com suas palavras. Só tem uns errinhos de concordância. Veja só:
"o pai e a mãe catava papel..." - o correto é catavam;
"...o estado é responsável..." - nesse caso Estado é com letra maiúscula.
E é só. Parabéns mais uma vez.

Freddie disse...

Amigo, agradeço o comentário. Escrevi o texto na correria nem tive tempo de reler. Valeu!

Larissa Marques disse...

Freddie tenho notado uma lapidação em seus textos, estou certa?Gostei muito desse!