domingo, 3 de junho de 2007

Artifícios


Tentou primeiro subornar meu querer com seu olhar de afeto
Depois inundou meu ser de suas mentiras bonitas...
Assim me seduzia. Fazia o que gosto, riscava o que detesto
Mas no fim só me dava a secura de sua persona talhada em mão hábil
Escondendo-me o que está debaixo dessa sua sedenta pele débil

Talvez até gostasse do que há nessas suas vísceras, no profundo
Já que sua talhada de pau-oco me serve só para enfeite, não me completa
Mas falar-te de coração é como dizer um adeus para um ateu...
Então lhe dou um adeus mais sincero que qualquer coisa que já viera da sua boca
Teu amar é tão quente e previsível quanto um filme barato e mal acompanhado
Onde a melhor parte é o intervalo da sua vida, mas ele nunca chega...

Meu artesão de falsidades, faça sua própria cova e lápide com alguns artifícios vazios
Se torne um Narciso de sua talhada e elaborada imagem na busca do impecável
Mas eu? Ah, se só isso me bastasse, mas sempre preciso de algo mais
Eu quero alguém com distorções, manco e infame, mas franco e (talvez) mais nada!

Acho que você não percebeu, o meu riso ali era honesto (e não era para você)...
Eu estava livre do seu "te quero", leve e letal como uma granada...
E acho às vezes que o seu ser sincero é ser falso, talvez... Ou talvez eu que não seja burra,
Sou um pluriverso dinâmico e cafona e você é estatueta numa prateleira moderninha

Você ainda me pergunta se eu tenho certeza do que decidi. Mas o que importa essa certeza?
Até os loucos têm certezas de estimação cravadas em seus hospícios
O Certo não é a questão, a questão é cardíaca e por isso ausente de certeza...
E para você? No final e na melhor das hipóteses, conseguirá a proeza de realmente
Convencer o mundo que sua talhada persona pode ter vísceras vivas!
Ah, mas só se for de vermes da madeira, exatamente aquilo que te consome...

Augusto Sapienza

5 comentários:

Marla de Queiroz disse...

Há tanto tempo eu não lia algo que verbalizasse o que tateei tanto e não pude.Por mais que tentasse me aprofundar, fiquei na superfície do que eu sentia de mais visceral, e quando me relia, parecia, de tão superficial, ter publicado uma mentira.
Mas as palavras se fizeram generosas com vc...E a consequência disto, foi um texto mais honesto.

Muito, muito bom.
Parabéns e obrigada!

Marcos Côrtes disse...

Eu sempre trabalhei em outro nível... Sempre vi a escultura como película que envolve uma motivação maior.

Mas seu texto me faz lembrar de que motivações, são sobretudo, vivas. Não admiráveis como uma beleza, e sim como viver.

Embora, em minha eterna discussão contigo... Eu digo que não existe recheio na bala. E você me diz que o papel é, em si, a bala.

(hehehe, mas deixemos o existencialismo com a Larissa, ela deve rir quando ler isso ; )

té...

Larissa Marques disse...

Menino, já havia lido esse texto seu, e já havia elogiado em uma de nossas conversas.
Você tem uma sensibilidade enorme para com sentidos e palavras, isso é seu diferencial, isso é que é ter estilo.
Beijo grande!

Larissa Marques disse...

Marcos, acho que compartilhamos da mesma crença, ou estou enganada?
Mas acho maravilhoso encontrar pessoas como o Augusto, que tece uma verve sobre a crença. e sobre a bala e o papel, um dia teremos a chance de trocar umas palavras sobre o assunto.
Beijo grande, aos dois!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Há muito não via um poema assim... Talvez nem tudo que é muito perfeito seja a exatidão da Beleza... Talvez sejam máscaras que escondem a face corroída... talvez seja a nobre madeira a esconder a podridão... Talvez!?
Gostei do texto.