terça-feira, 22 de maio de 2007

A busca pela epidemia

Os heróis, que do passado definiam nossas vidas dizendo quem éramos, foram assassinados e enterrados pela razão. A razão, apaixonada pela crença em seu próprio poder, projetou no futuro científico o sonho de um mundo de progresso e desenvolvimento; jogamos a mitologia para o lado e miramos, com nossos olhares positivistas e admirados, o porvir utópico.

O tempo, como era de se esperar, passou e trouxe a decepção. Decepção de vermos que nossa política não acompanhava nossa ciência, que nosso egoísmo continuava tão brutal como nos tempos obscuros. A tecnologia não trouxe menos carga de trabalho, mas sim desemprego. A otimização dos meios de produção não acabou com a desigualdade, mas criou novos faraós. Nasceram impérios com base no suor e na fome da mão-de-obra vinda do campo e recém-transformada em massa. Massa esta, que um dia foi vista como germe de uma possível revolução. Revolução abortada por seus líderes que (como hoje parece ser óbvio que aconteceria, mas que na época foi triste e brutal traição) se enamoraram pelo poder, tornando-o totalitário e terrível. Outra dificuldade para a sonhada revolução foi a impossibilidade de transformar massa em conjunto de indivíduos, em força intelectual e física contra um império que se fez gostar disfarçando-se de democracia.

O sistema enfraqueceu a possibilidade de revolta, não com a mão pesada da ditadura, mas com a sedução do consumo. O ter, muito facilmente, substituiu o ser. O parecer se apropriou do todo; da morte da alma brotou o simulacro.

Hoje, sem mitos do passado ou utopias do futuro, o homem já nasce cínico. Afunda (pensando flutuar) no vácuo que se tornou essa existência sem fundamento e sem projeção. Vida, dita pós-moderna, sem história (que lhe dê bases de sustentação) e sem esperança (que gere força e possibilidade de ação). Neste limbo, nos conformamos em sobreviver e desistimos de lutar por não sabermos como.

Mas quem sabe, exista esperança. Talvez ainda sem forma definida, mas adivinhada ou imaginada porque sentida ou, ao menos, sonhada (e para nós que até o parágrafo anterior tínhamos o nada, isso já é força!). A esperança é que alguns ainda insistam em pensar. Alguns teimosos se recusam a abrir mão do direito que elaborar novas questões ou de dar voz a antigas. Enquanto houver sussurros e/ou gritos dissonantes, há possibilidade de algo que não sabemos o que é, mas que só por não ser senso-comum talvez já valha a pena. Por isso, não subestimemos o poder de uma conversa entre amigos inconformados, mesmo que a principio ela pareça (ou mesmo seja) somente catarse. Nem ignoremos as poesias, os romances, os contos ou mesmo os panfletos que nos despertem a ira e a vida. Temos que acreditar na possibilidade de contágio. Afinal, não seria assim tão surpreendente se as vozes dos inconformados um dia se multiplicassem. Outras epidemias e pandemias já existiram, e não foram pequenos os estragos que elas fizeram, por mais forte que os sistemas imunológicos dos organismos atingidos fossem considerados até então.

9 comentários:

Larissa Marques disse...

Encarar as verdades humanas nem sempre é fácil, mas me faz filosofar sobre a pergunta, não seria melhor continuarmos adoráveis macacos?
Seu texto é maravilhoso e estou honrada com sua cheagada do Manufatura, sê bem vindo! Beijo!

Thorpo disse...

Muito obrigado Larissa, a honra é minha.

Thorpo disse...

Sabia que era uma opção arriscada este texto para primeiro post. É denso, pesado. Mês que vem coloco um conto pra ter mais ibope. rs
Mas acho que foi importante, pois já mostro logo de cara o que penso e quem sou.

Abraço a todos

Larissa Marques disse...

Não creio que deva mudar seu ritmo, nem sua tendência de escrita. O maior problema das pessoas, inclusive dos leitores é não se dar ao luxo de ler textos maiores, infelizmente. Estes apressados perdem a oportunidade de degustar obras como essa. Realmente uma pena!

medusa que costura insanidades disse...

Arriscar gritos,rasgar o verbo é mais que um ato de coragem....diante da truculência que vivemos,das máscaras que vestimos é obrigação que poucos conseguem
Um texto corajoso, em carne viva,verdades e abismos que o próprio autor diz ser um construtor...Parabéns Thomás dividimos revoltas....dividimos sonhos

Augusto Sapienza disse...

"Quem, de três milênios,
Não é capaz de se dar conta
Vive na ignorância, na sombra,
À mercê dos dias, do tempo."
Johann Wolfgang von Goethe

Ótimo texto meu amigo... Gostei muito! Seu texto me arremete a outra questão: "o que fazemos para mudar o que tanto nos insatisfaz?"

Abraços...

Glauber Vieira disse...

Thorpo, me identifiquei bastante com teu texto,parece que o mundo realmente é uma nau a deriva. É um texto tão rico que vc poderia até pensar em desenvolvê-lo mais (ficou aquele gostinho de quero mais, entende?)

Thorpo disse...

Augusto, obrigado pelo comentário. Tua pergunta é ótima, na verdade vital. Há algum tempo minhas leituras e estudos giram nesta órbita. Acredito, hoje, nas micro-revoluções e nas pequenas recusas. A ação ao nosso alcance, que não precisa esperar um devir histórico de futuro idealizado. Mas isso não pode ser confundido com o famoso “faço a minha parte” de quem faz doações a ongs, mas não questiona a estrutura do todo. Acredito, e mais que isso, enxergo, que vivemos um momento obscuro: grandes massacres são legitimados pelas regras do mercado. O mercado, a globalização, os Estados são maiores do que nós? Não! Por incrível que pareça, não são. Nós o criamos e não eles a nós. Capital, lucro, corporações, são criaturas, os criadores somos nós. Quando alguém diz que isso é ingenuidade minha, respondo que ingenuidade é acreditar que as coisas são como são por determinismo. Tem uma frase do Foucault que adoro, que é assim:
“Há um otimismo que consiste em dizer que as coisas não poderiam estar melhor do que estão. Meu otimismo consistiria antes em dizer que tantas coisas podem ser mudadas, frágeis como são, determinadas mais por circunstâncias do que por necessidades – mais arbitrárias do que auto-evidentes, mais uma questão de circunstâncias históricas complexas mas temporárias -, do que por constantes antropológicas...”

Thorpo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.