domingo, 20 de maio de 2007

Coexistência




Todo mundo invejava o casamento de Adriano e Júlia. Ah, mas que fique bem claro: uma inveja saudável – se é que isso existe. Os dois viviam sempre juntinhos, trocando juras de amor e sorrisos cúmplices.
Enquanto isso, nos bastidores da relação...
- Há algum problema? Há algo de errado nesse texto? Por que você insiste em me boicotar? Não consigo entender as suas recusas...
- Eu te entendo, dizia Júlia.
- Pára de lixar essas unhas e olha para mim. Fala comigo, Júlia.
Júlia franziu a testa, passou a lixa no canto da unha do dedo indicador pela última vez, pegou um chumaço de algodão cuidadosamente, com as pontas dos dedos. Na outra mão pegou um frasco de acetona, molhou o algodão, e, enquanto fazia um bico com os lábios, como se fosse beijar alguém, esfregava o algodão nas unhas, assoprou-as ainda úmidas e olhou para todos os dedos das mãos, como se estivesse dizendo a si mesma, “é linda a minha mão”. Levantou-se, colocou o frasco de acetona em cima da escrivaninha, e saiu. Estava de roupão, gostava de andar de roupão pela casa, pés no chão, e um cheiro de quem acabou de sair do banho. Um perfume suave que aliado aos seus movimentos vagarosos e despreocupados pareciam agredir o ambiente hostil.
Adriano amava o que escrevia. Adriano pensava mais do que escrevia. Adriano teorizava o que escrevia. Adriano odiava se não lessem o que ele escrevia. Adriano queria absorver Júlia. Adriano queria que ambos fossem um, não aquele um metafórico que simboliza união. Ele queria domínio. Adriano não queria ser ela, mas queria que ela o compreendesse em todas as ocasiões. Com o passar do tempo Julia descobriu que a resposta mais apropriada para as indagações de Adriano era, “eu te entendo”.
- Sabe, andei pensando em nós dois. Nos últimos tempos tenho estado muito preocupado com o próximo livro. Precisa compreender que depois daquela resenha, na Folha, sobre o meu último livro, tenho a minha grande chance. Preciso me superar no novo livro. Pela primeira vez um crítico literário conseguiu vislumbrar a magnitude dos meus escritos. Mas, para que eu possa ter sucesso nesse trabalho, você precisa colaborar, somos um. Você é minha inspiração.
Essas palavras foram proferidas no banheiro, Júlia tomava banho enquanto Adriano, sentado na tampa do vaso sanitário, proferia seu discurso. Há muito tempo Júlia aprendera viver em silêncio. A cantar em silêncio, a pensar em silêncio. E, silenciosamente, cantava uma música. Adriano proferindo seu discurso e Júlia imaginando notas musicais, violinos, um coral de vozes... O banho estava prazeroso, a água quente, as suas idéias distante da frieza que habitava o lado de fora do box. Adriano desistiu de falar. A última palavra que Júlia ouviu foi, “dormir”. Sentiu-se aliviada ao ouvir aquilo. Saiu do banho, passou creme por todo o corpo, fitava o seu corpo no espelho quando percebeu a banheira refletida logo atrás de si, deu um sorriso ao lembrar que foram poucas às vezes que usaram aquela banheira.
Chegou no quarto, Adriano escrevia obstinado. Agora, ela já percebia uma alegria no seu olhar, percebia que ele tinha encontrado o ponto certo de sua narrativa. E quando ele se percebeu sendo admirado, ficou sem jeito.
- Júlia, agora vai! Já tenho tudo o que preciso aqui.
Júlia se recostou no sofá-cama do quarto, ali mesmo perto da escrivaninha, cantarolou uma música em silêncio para não atrapalhar o marido, e adormeceu. Não era submissa, tampouco era feminista, não era infeliz por viver em silêncio. Ela também xingava em silêncio, brigava em silêncio...
Júlia era toda nulidade, negação de si, pura abnegação, só nunca concordou em ler os textos de Adriano, não gostava de literatura. Nunca discriminou o marido por ser escritor, nunca fez nenhuma cobrança, sempre o apoiou e, de certa forma, se sentia orgulhosa com o sucesso do marido. Mas, Adriano queria ouvir críticas, opiniões, sugestões... E Júlia oferecia silêncio.
Um dia Júlia foi embora em silêncio. Não deixou carta, não deixou telefone e endereço. Adriano está escrevendo um romance, iniciou o segundo capítulo, mas busca inspiração para prosseguir escrevendo depois da frase “eu te entendo”.

4 comentários:

Larissa Marques disse...

Lindo meu querido, sê bem vindo ao nosso espaço... E que estréia, hein! Digo que meus olhos estão sempre cheios de "calos". Quantas vezes nos calamos, dormimos magoados por não sentirem nossa presença, nem nossa falta, sermos nulos.
Gostei muito de seu escrito e mais ainda do tema.
Beijo grande!

Claudia Menezes disse...

Nossa, ficou muito legal !!! Cedo ou mais tarde a pessoa não agüenta uma situação dessas .. :)

Deveras disse...

É o pior comentário é o silêncio. Belo conto.

ficanapaz

Thorpo disse...

O cantar em silêncio foi uma imagem bem interessante que vc criou.
Realmente, conheço mulheres que foram silenciadas, aparentemente anuladas, mas que conseguiram sua “micro revolução” de maneira, também, silenciosa.