segunda-feira, 21 de maio de 2007

The Postmodern Condition

Gosto de observar e ouvir a água caindo no chão seco seja esse, apenas terra fofa, chão batido, concreto ou asfalto. É mágico fixar o olhar nas células sendo sugadas pela terra e algumas gotículas invisíveis a olho nu se evaporando.
Talvez esteja ai a simbiose do existir em contrapartida com o inexistente, porém, nesse caso a água existe, então depois de ser sugada ao menos aquele líquido específico – isso porque estamos tratando do meu copo -, deixou de existir, ou evaporou-se? Podemos fracionar tudo em regras cuja solução seja a coerência do óbvio, para não usar termo pejorativo.
Para tudo temos frases que nos traz essa concepção fechada - Bom, nunca me canso de repetir a frase ‘a morte faz parte da vida’, porém mesmo ora tendo consciência disso os fatos nos pegam de surpresa e não encontramos saída para aquilo que parecia, podia e, possa ser tão óbvio, tão objetivo.
Mas penso que as coisas são assim propositalmente. Pois acredito que é preciso que estejamos presos para não sairmos no momento em que não podemos sair – um canal hídrico? Infância? Relacionamento? Leis? -, sei lá se isso se trata de destino. Hoje desacredito e acredito em tudo, até em mim mesmo.
Imaginemos a contenção numa escala perpendicular, ou seja, uma realidade que num determinado momento será surreal, senão, impalpável, mas que logo se encontrará para o tocante ao fato de existir, ou seja, formar uma realidade coesa.
Posso simplificar a vida do Pedro e da Carola, o Pedro gosta da Carola, mas ele vive em Guarulhos, trabalha em uma adega como recepcionista, é poliglota – estamos falando de francês, espanhol, italiano e inglês -, está cursando engenharia química em uma universidade federal e ainda não tem dinheiro para aquisição de seu carro próprio, apesar dos seus sete anos dedicados a carreira profissional, três a universidade, o que subtrairíamos nove anos dos seus 28 completos no dia 28 de janeiro deste ano.
Já a Carola tem 26, fala inglês e está cursando espanhol, com muita dificuldade, não porque ela não tenha condições para pagar o curso, mas é que não consegue habituar-se com a pronúncia verbal da América Latina. Ela está terminando o curso de assistência social e pretende cursar relações públicas, por isso dedica mais de 1/3 do seu salário de recepcionista de call center à cursos de línguas. Tem cabelos negros, lisos sob altura do ombro, pele clara e olhos castanhos. Aprendeu a bordar aos sete anos, apenas observando sua mãe bordando no sofá. Numa determinada época colocou na cabeça que queria se casar, e que isso aconteceria logo, tratou de organizar e bordar o enxoval aos 15 anos de idade com a ajuda das tias Helena e Erondina, senhouras rondonienses típicas da região rural.
Carola nunca saiu do seu Estado, conheceu Pedro na Internet, através de uma sala de bate-papo no portal da UOL, se identificaram pelos nicks, ela adorava Kid Abelha – isso há seis anos -, e ele de comida doce, seus respectivos nomes eram: Mel e Pintura Íntima. O assunto rendeu: aparências, sexo, drogas, sexo, idade, sexo outra vez, sexo, sexo, sexo, métodos contraceptivos, sexo, desejos, dinheiro, mentiras na Internet, música, rock, Kid Abelha, flan de chocolate, sexo, mel com aveia, sexo, mel sobre o corpo e sexo. Depois decidiram falar sobre o futuro, e já se imaginaram casados, mas ele precisava vê-la, ao menos em foto mesmo sem o rosto. As pernas e bumbum eram contemplativos. Ela não precisava disso, o discurso dele fez com que ela idealizasse a vida e a morte em menos de vinte minutos.
“Eu estou aqui há quilômetros de você, e se não fosse um desses fatos inusitados não estaríamos tão saudosos um pelo outro, certo?” Errado! O Adalberto tem a melhor das intenções e está a oito metros da casa dela.
“Te desejo tudo de bom, ótima percepção do mundo, coerência, amabilidade, emoções a flor da pele e muita atitude, contradições, paradoxos, e comedimento, porque de certa forma isso pode não ser a vida, no entanto, é o que nos faz senti-la”. Por que as mulheres têm que ser tão densas, se o que é bom de viver é curtir as coisas sem contextualização? (...) Alguns passam por muito em curto tempo, outros levam anos para viver um único fato. A liberdade, por exemplo, vive correndo atrás de mim, e eu vivo correndo contra ela por estar preso em conceitos pragmáticos e dualistas talvez, não tenho respostas.

3 comentários:

Alexandre disse...

Gostei da crônica. Muito bem escrita e de fácil leitura, nos leva junto com o narrador!

Larissa Marques disse...

E quentas pessoas estão presas ou se isolam nesses desertos ou oásis virtuais?
"Quem sabe a vida é não sonhar?"como dizia Cássia Eller.
Adoro sua prosa, invejo-a!
Sê bem vindo!
Beijo grande!

Deveras disse...

Gostei de ter colocado uma introdução no início, desviando um pouco o foco, até entrar de vez no texto.

ficanapaz!