sexta-feira, 18 de maio de 2007

O Amor e a Ética

Dar aulas na faculdade nunca fora o intento do Prof. Arnaldo Biroswki. Vivia bem com os livros sobre literatura, os quais rendiam uma receita que dava para viver bem e para “matar o tempo”, lecionava em dois colégios de um amigo. Segundo grau, coisas simples, alguns comentários sobre os livros que cairiam no vestibular eram o bastante. Aceitou a cátedra mais por vaidade que necessidade, tal foi a deferência do reitor ao convidá-lo. Isso mexeu com seus brios profissionais, sim senhor.
O ambiente universitário era diferente daquele ao qual se acostumara. Desde que enviuvara, era um homem bem diferente. Com poucos amigos, nenhum vício, o excêntrico horário de se recolher, impreterivelmente às oito e meia da noite, fizera dele um recluso, uma espécie de asceta literário que preenchia seu tempo entre livros e aulas. Não que fosse um tipo ancião, pragmático. Beirava aos cinqüenta, mas ainda era bem apessoado e demonstrava no máximo uns trinta e oito. Seu modo de vida inspirava diferentes reações, que iam da admiração ao escárnio.
Mas as últimas semanas estavam tornando o campus pequeno para ele. Como professor de segundo grau, sempre soubera tratar com as platônicas paixões devotadas a ele pelas alunas, todas adolescentes, que embora no geral fossem na sua maioria belas, ainda não haviam deixado de lado alguns traços característicos da infância. Conversava pausadamente, explicando que era velho demais, que ainda encontrariam um jovem de bom coração que lhe devotaria o mesmo apreço e por aí ia. Isso bastou em noventa e nove por cento dos casos. O que ele não contava, era encontrar o número que faltava para fechar a porcentagem na faculdade.
Amanda era uma morena trigueira, de belos olhos e de um corpo digno de um desenho de Rembrandt. Logo na aula inaugural, ele sentiu-se novamente fuzilado por aquele olhar castanho, profundo e inquietante: agora ela não tinha mais aquele ar de menina-moça, havia se tornado uma mulher extremamente atraente e sensual. E o pior, é que ela sabia muito bem disso e tirava partido da situação. Não foi difícil reconhecer a caligrafia do cêdêefe da sala no primeiro trabalho dela. Sabia muito bem como convencer um homem. As perguntas que ela lhe lançava durante as explicações, os questionamentos no final das aulas, em um tremendo esforço para ficar a sós com ele, o retrucar lânguido do aperto de mão, tudo aquilo tinha o seu quinhão de tentação.
Ele se apoiava na ética própria de nunca se envolver com alunas. Muito embora não tivesse um relacionamento sério desde a morte da esposa. Casou-se com a primeira namorada, quatro anos de vida a dois, muitas recordações, nenhum filho, uma morte trágica: o amor nunca fora realmente um terreno fértil para Arnaldo. Já era agradecido pelo que havia vivido, mexer novamente nas placas que soldavam seu coração não teria sentido, podia abrir alguma ferida antiga. Vivia quase só e isso lhe bastava. O quase era personificado na figura de Antenora, misto de empregada e conselheira, que há quinze anos era quem cuidava de sua residência.
E era justamente por todo este conhecimento da sua governanta, é que o Prof. Biroswki não acreditou quando ela disse que alguém o esperava no salão. Ele estava como sempre, na imensa biblioteca herdada dos seus ancestrais, lendo ou relendo algum volume de certo interesse e ouvindo Caruso, no caso Ridi Pagliaci. Ficou um tempo absorto, pensando no inesperado da visita, mas como o recado teve como ênfase a palavra urgente, mandou que trouxesse quem o esperava.
Era Amanda, como ele imaginava. Chegou a admirar a audácia dela. Ao serem deixados a sós, a moça não perdeu tempo em dizer seu intento. Nem precisava.
Atravessou a espaçosa sala, dirigindo-se entre a mobília ricamente trabalhada, ornada com peças de alto valor histórico e venal, detendo-se diante dele.
Usava uma espécie de capa de couro, do tipo que se usa em dia de chuva, mesmo estando em pleno verão. Estacou a centímetros do rosto dele, puxou levemente a cinta que cingia sua vestimenta, abrindo-a por inteiro. Não usava nada por baixo e exibiu todo esplendor daquele corpo macio que convidava ao pecado. Com um movimento rápido, jogou a capa ao chão.
- Dá-me um bom motivo para não tomar tudo isto só para você.
A voz dela era imperiosa, o olhar faiscava vontades e demonstrava toda a determinação de uma mulher em querer algo, ou alguém. Arnaldo olhava estático, desta vez fora pego de surpresa e que surpresa. Suas conhecidas e elogiadas capacidades intelectuais nada poderiam fazer para ajudá-lo no momento, não sabia que decisão tomar por instantes. Atingido como que por um raio, dirigiu-se para a larga porta. Abriu uma das partes e gritou pela governanta. Agora era Amanda quem não sabia o que fazer: a chegada da empregada, que vinha se desculpando com o patrão foi recebida com um potente e demorado beijo de língua, daqueles que se vê no cinema, mas com uma força maior. Parecia um beijo que demorara muito para acontecer.
Sentindo-se novamente a garota do ginásio que fora preterida pelo mesmo professor, Amanda abaixou-se, pegou suas roupas e saiu cabisbaixa. O beijo ainda continuava. Não precisava de outra explicação.
O sair da visitante, bastou para acabar com a magia do ósculo. Antenora estava vermelha como um pimentão e olhava atônita para o professor. Este, tremendamente perturbado, girou nos calcanhares e foi para o nunca freqüentado barzinho que inutilmente preenchia um dos cantos da ante-sala. Serviu-se de uma dose avantajada de whisky e bebeu de um só gole, como um inveterado bebedor. Suas idéias estavam muito mais que confusas. Começou a se lembrar da fisionomia da garota em todas as aulas, o olhar apaixonado, a decisão quase suicida de encontrá-lo ali, com a paixão aflorando por todos os poros. Sentiu-se um canalha por não haver ao menos conversado com ela, tentar explicar algo que ele agora sabia que não era verdade. Ela mexia com ele, que, por conta de sua ética arcaica, não se arriscara a aventurar-se. Voltou à biblioteca, para se desculpar com sua funcionária.
Ao adentrar o vasto salão, deparou-se com Antenora nua em pêlo, parada com os braços abertos em convite. Olhou a diferença daquele corpo com mais anos que ele próprio, os seios arfando, o sorriso banguela, pois a dentadura fora arrancada pela força do beijo:
- Ah, meu amor, há treze anos espero este momento!
Disparou porta afora, pegando o celular jogado na mesa.
- Alô, aqui quem fala é o Professor Biroswki, preciso imediatamente do telefone de uma aluna. O nome? Amanda. Amanda Gouveia...

7 comentários:

Me Morte disse...

Cara talentoso é esse, bom é pouco, ótimo. Boa estréia Cristiano. Como sempre impecável. Que vc enfeite nosso blog com seus escritos. Beijão

Alexandre disse...

M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O!

Larissa Marques disse...

Posso estar enganada, mas não acredito que haja ética no amor, nem no sexo.

Larissa Marques disse...

ótimo texto! Sê bem vindo!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Caramba...
eu não resistiria a essa tentação não... a ética ia pras "cucuia"!
Bom o texto, Seja bem vindo ao manufatura!
abração.
Paz e Literatura Sempre!

Glauber Vieira disse...

AH, AH, é muito prazeroso ler textos assim, mesclando erotismo e humor. Parabéns, Cristiano.
Só há um pequeno errinho: veja o trecho "... dava lecionava em dois colégios... . Acredito que o "dava" está sobrando; é só isso. O texto está maravilhoso.

Marcus disse...

Ótimo texto! conciso, bem humorado e ...realista! Eu estudei com o professor Biroswki em 69. O Deveras o descreveu com maestria e exatidão!
Uma fotografia textual!

Um brinde Devas! Meu grande mestre Finja!