quarta-feira, 16 de maio de 2007

Maria Baderna

Como bom atleta de final de semana, encontrava-me em minha corrida vespertina, realizada somente aos sábados (isso em caso de tempo bom). Para variar o caminho, saí de casa e não fui em direção ao parque. Meu destino naquele dia foi o campus da universidade. Desacostumado com o esforço físico e castigado mais ainda pelo vigoroso Sol daquela tarde, já punha a língua de fora após 2 quilômetros de percurso que me pareceram meia maratona. Meu fôlego aumentou um pouco após a inesperada garoa que começou a cair. Contudo, a simpática chuvinha transformou-se em pouco tempo numa ameaçadora tempestade (efeitos do el niño...). Parei de correr e voltei-me num círculo a procura de um abrigo. A algumas dezenas de metros reconheci o imponente prédio da biblioteca universitária. Dirigi-me para lá correndo, gastando as últimas energias que possuía. Cheguei à entrada do prédio arfando como uma pessoa afogada, mas procurei disfarçar haja vista a presença de simpáticas alunas no local. Fiquei na companhia delas que, como eu, esperavam a chuva diminuir um pouco para saírem do lugar. Meus planos vieram por água abaixo (literalmente) quando uma rajada de vento praticamente me expulsou para dentro da biblioteca. Cheguei a óbvia conclusão de que, de bermuda e camiseta, debaixo daquela chuva e açoitado pelo vento, o máximo que conseguiria, se ficasse ali exposto, seria uma pneumonia. Entrei no prédio e fiquei andando durante algum tempo pelos seus corredores, a fim de secar-me mais rápido. Entrei numa lanchonete e pedi um café. Pouco depois, já seco e aquecido, resolvi passear um pouco por entre os livros; sempre gostei de ler e queria descobrir as novidades. Passeando por entre as estantes, deparei-me com um antigo livro de biografias, mas com uma particularidade: apenas mulheres estavam ali relacionadas, e todas tinham vivido no Brasil. Tirei-o da estante e me sentei em uma daquelas cabines que os universitários usam para o estudo. Percorrendo o índice, encontrei as mais famosas personalidades brasileiras do sexo feminino: princesa Isabel, Bárbara Heliodora, Cecília Meireles e Maria Bonita, dentre tantas outras. E naquela extensa lista, reparei também em um nome que nunca ouvira falar: Maria Baderna. Interessei-me de imediato por aquela história, afinal, já conhecia um pouco da biografia das outras mulheres. “Com um nome desse, devia ser um poço de confusão, ou mesmo uma criminosa”, pensei. Abri o livro na página indicada e, ao contrário das outras personalidades, não havia uma foto ou mesmo desenho para ilustrar a biografia. Era, pelo visto, uma mulher do povo. Uma pena, pois queria ver o rosto daquela “baderneira” que merecera até mesmo um verbete de dicionário. Pois bem, inicialmente descobri que Maria nascera na Europa em 1825, provavelmente na França. Envolveu-se em movimentos políticos na juventude e, em 1850, resolveu mudar-se para o Brasil. Após passar alguns meses em um navio, aportou no Rio de Janeiro, onde fixou residência. “Até aqui, nada demais”, estranhei na hora. E continuei: Maria se tornou dançarina, e deve ter alcançado algum destaque, pois segundo alguns, provocava desavenças e brigas entre os homens. Daí ter recebido o apelido de Maria Baderna. Outros pesquisadores, no entanto, garantem que o apelido veio de outra forma: Maria também era abolicionista, e chegou a organizar quilombos no interior da província; ela participava dos movimentos sociais e encontros populares, que evidentemente reuniam uma multidão de pessoas ansiosas por reformas sociais e a própria liberdade. Com os nervos “à flor da pele”, era natural que eventualmente alguns desses eventos terminasse de forma mais agitada. As velhas raposas não perderam tempo em batizar a dançarina com esse apelido, numa clara maneira de tentar depreciá-la. Interrompi a leitura e passei a refletir. Sem dúvida, a segunda versão me parecia mais convincente, afinal, a injúria é uma das formas mais eficientes para tentar anular a influência de uma pessoa que vai contra a ordem estabelecida e os interesses alheios. Para a chamada elite, pessoas com consciência política e baderneiros são simplesmente sinônimos. Por fim, descobri que Maria morreu ainda jovem, em 1870. Tinha 45 anos e estava no interior da província, talvez em um dos quilombos que ajudara a criar. Fiquei alguns instantes imerso naquela pequena história, que mal ocupava uma página do livro e contrastava diretamente com a extensa biografia das princesas, nobres e grandes artistas ali descritas. Aquela simples página no meio de tantas para mim representava muito bem o que o povo significa na vida da nação como um todo: um pequeno papel que muitas vezes passa despercebido. Olhei em volta e percebi uma jovem negra que procurava algum livro na estante; mais ao canto da sala, um senhor também negro catalogava revistas para a seção de periódicos. Imaginei como Maria Baderna ficaria feliz ao perceber que, embora os negros (e outras minorias) ainda sofressem com o preconceito, eles já estavam livres, ao menos, dos grilhões de ferro, físicos e palpáveis. Restava agora lhes libertar dos grilhões subjetivos, dos preconceitos e das condições menos favoráveis de vida. Mas isso, já era tarefa nossa. Levantei-me após algum tempo e deixei a obra fechada sobre a mesa. Quando já estava saindo do recinto, retornei repentinamente, voltei a abrir o livro naquela biografia, e o deixei aberto sobre uma mesa central: queria que outra pessoa descobrisse a história daquela interessante e injustiçada mulher. E ao sair da biblioteca (a chuva já cessara), caminhando pelo campus em direção a minha casa, perguntei para mim mesmo qual seria o apelido mais adequado para aquela dançarina européia que, na casa dos 20 anos, se viu em um país tropical lutando pelo fim da escravidão:
Maria: Baderna ou VISIONÁRIA?

7 comentários:

Larissa Marques disse...

Glauber, já comentei esse seu texto em outro espaço, chgo a me sentir meio Maria Baderna, risos.
Mas não me acho visionária, risos múltiplos.
Adorei o texto!
Beijos!

gleice.miguel disse...

olá querido irmão, lembrei d entrar aqui pra ver seu texto, esse já conhecia, bem legal...beijos a vc, "cumpadri"

Mário Carvalho disse...

Nçao conhecia o bog, mas gostei de tudo que vi, maravilha!

Deveras disse...

Não conhecia a história da Baderna, muito boa e a reflexão feita, perfeita.

ficanapaz!

Flávio Otávio Ferreira disse...

Assim são os rótulos que a sociedade impõe, carregados de preconceito. Maria Baderna era com certeza uma visionária.

Abraços!
Paz e Literatura sempre!

Glauber Vieira disse...

Valeu gente obrigado. Espero que sejamos todos como Maria BAderna!

Claudia Menezes disse...

Oie! Glauber .. Adorei o seu texto .. Ficou muito bem escrito .. Infelizmente, existiram muitas mulheres injustiçadas nesse mundo. Aliás, ainda existem mulheres injustiçadas. Beijins ^^
=]