terça-feira, 29 de maio de 2007

Convidado: Antônio Alves

Da fidelidade

A Larissa Marques

Ao notá-lo inconsciente percebi que era meu inimigo. Este é o momento ideal para alguém tramar algo, de olhos fechados, sobre a cama, de bruços. Retiro o lençol de meu corpo meio zonza, colocando as mãos na cabeça na esperança inútil da dor súbita passar; por um milagre a dor passa e levanto-me sem sobressaltos acendendo o abajur que um outro me dera no Natal em troca dos bons serviços. A luz avermelhada ofusca os olhos como num flash estranho. De imediato a apago na preferência feliz das trevas de minha caverna; acendo novamente e o incômodo vai embora no limiar da noite escura, como num estalo da divina providência. Está lá, de bruços, no ardor de um fingimento, arquitetando meios de me destruir, montando quebra-cabeças, estratagemas sombrios.
Caminho disfarçando-lhe importância, de um lado para o outro, depois até à janela. Admiro a Lua, sempre lá, em órbita. Penso no anti-romantismo de quem veio a esta espelunca e dorme pesado, articulando planos, depois de sugar minha alma em movimentos compassados e torpes; certamente não contemplou uma lua boiando no céu iluminando os corações ternos dos jovens e dos poetas. Na cidade veloz os automóveis flutuam alucinados cheios de motoristas desenluados levando mulheres de minissaia e maquiagem forte para lugares escuros e baldios.
Penso em Carlos, num ímpeto, a fazer versos de rimas previsíveis mas que de certa forma me acariciava o coração, talvez eu quisesse mais que carícias, talvez eu quisesse ser mesmo destruída, trespassada. Às vezes na solidão sinto saudade dele, de sua mão branca e sem pelos a tocar meu rosto como quem nada quer. Eu queria o que Carlos não podia dar. Ainda tenho a caixinha de sonetos guardada a sete chaves e de quando em vez algumas lágrimas caem depois de uma relida enfática. Que destino cruel teve Carlos. Aquele agosto jamais será esquecido.
Parece que o homem deitado quer acabar com a mentira e abrir os olhos de vez. Não, está quieto, ainda de bruços, pálpebras fechadas. Desejaria que ele declamasse algo de Byron, mas o seu braço forte e encardido de operário e falhas em sete dentes eram indícios de sua ignorância para com o lorde. Ah, Byron seria perfeito demais! Seria um Carlos operário, e Carlos era tão-somente Carlos, um funcionário de repartição pública, sem mais. Lembro-me do seu choro quando parti. As cartas com versos apaixonados que recebi depois pareciam mais esfuziantes e os poemas mais organizados, era como se ele tivesse adaptado a felicidade dele à minha distância e isso, de certa forma, não nego, me fazia mal, pois eu era um joguete na sua escrita romântica e ardilosa. Quem sabe eu fosse a musa inatingível. Decidi encontrá-lo, já era tarde. Aparecera morto, com uma bala alojada no crânio. Carlos só me ofertava amor e lua e nada mais.
Teve um dia em que fomos quase felizes, quando saímos correndo pela colina como bobos e deitamos com a face para o céu até o cair da noite, contando as estrelas, sem tocar palavra. E depois até o amanhecer. Abraçamo-nos por um bom tempo, nos beijamos enamorados e nos conhecemos pela primeira e única vez. Carlos sabia escrever o amor, não consumá-lo. E assim ficamos até o dia da escolha.
A noite está vazia, sem estrelas. Da janela do oitavo andar no centro da cidade a vidraça me protege. Deito-me na cama escorando a cabeça no cotovelo direito e deixo deslizar a mão esquerda sobre o corpo do inimigo. Cabelos, dorso, nádegas, panturrilha e pé. Eis uma combinação de luxúria se não fosse minha conduta sacrossanta. Fecho os olhos e penso em Carlos e na sua voz de veludo. Sussurro nos ouvidos do outro “eu te amo, Carlos”. Por sua vez, o homem se revira sobressaltado e me diz nomes feios, impronunciáveis. Toca-me como objeto, traslada meu corpo e me ama a seu modo.
Depois de feito, o homem se veste resmungando alguma coisa vil e bate no meu rosto com pequena força, sorri, deixa um trocado no criado-mudo e sai vencedor da grande guerra, mal sabendo da traição que sofrera, pois Carlos está sempre aqui, dentro de mim, suspirando poesia a cada punhalada do inimigo, possuindo-me verso a verso, rima a rima, numa métrica perfeita, sonetamente.
Um outro entra pela porta e sei que vou amar Carlos mais uma vez.


Antônio Alves é escritor, contista, amante da arte e da loucura. Apreciador da filosofia, em especial a existencialista. Traz seu estilo inconformado e combatente em sua escrita. Faz parte da SPV (Sociedade dos Poetas Vivos de Goianésia), um grupo que tive o prazer de conhecer pessoalmente, tratam da literatura na prática, em debates construtivos e contestadores.
Poderá conhecer mais de Antônio Alves:
http://daliteratura.zip.net/

Um comentário:

[barba] Uonderias disse...

vamos comentar pessoal!


bom texto!